''Nos anos 50, a grande fase da madeira entre outros luxos, Itararé possuía os Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A empresa fazia escalas diárias em nossa cidade. Segundas, quartas e sextas para Curitiba, com escala em Telêmaco Borba, terças, quintas e sábados para São Paulo. Bons tempos... aviões lotados, passageiros de todos os tipos...
Fazendeiros, funcionários públicos, madeireiros, assalariados, comerciantes...
E por falar em comerciante, o Nélson Ferrão era um dos assíduos passageiros da Cruzeiro. Com sua loja de armarinhos na praça São Pedro, todo mês ele ia até São Paulo para comprar na 25 de Março. Naquela bela e ensolarada manhã de terça-feira, o Ferrão estava atrasado. Já tinha perdido a perua do Orlandinho, o jeito foi apelar para um carro de praça.
No volante de seu chevrolet 40, o Mário Libanio dormia no ponto (São Pedro). Acordou com o grito do Ferrão do outro lado da rua:
Mário, rápido pro campo daviação!
Encheram o bagageiro de malas e lá se foram. Em frente à caixa d'água, o chevrolet tossiu, o Ferrão consultou o relógio, o Mário puxou o afogador... Ao passarem pela Capela do Divino, nova tossida, aliás, duas, o carro quer engasgar, o Ferrão torna a conferir as horas... Uma segundinha, um tranco e a vida, ou melhor, a corrida continua.
Na passagem de nível da Sorocabana, o solavanco, o carburador do Quarentinha pede gasolina, começa a sororoca... Num último estertor, ele dá dois corcovos e estaqueia bem em frente à porteira de arame... O tanque secou!
Instintivamente os dois saltam do carro. Lá no hangar, cerca de 300 metros dali ouve-se o ronco do Douglas pronto para a partida. Não há tempo a perder. O Ferrão se encarregou das malas, o Mário não pensou duas vezes, abriu a porteira e invadiu a pista.
De braços abertos e boné na mão, corajosamente foi ao encontro do avião que taxiava para a decolagem. Como um bom chofer de praça, o piloto atendeu aos acenos desesperados do Mário e esperou pelo Ferrão.
O freguês em primeiro lugar. Pode faltar gasolina, mas não a coragem''.
()

mockup