O avesso do pão e circo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de março de 2018
Magaléa Mazziotti<br>Reportagem Local 

O avesso do pão e circo travando um diálogo que rompe os limites entre os corpos e a cidade por meio de uma programação que faz da militância poética uma saída frente ao caos instalado. Eis a nota de fundo que se percebe na seleção das 29 atrações que integram a Mostra da 27ª edição do Festival de Curitiba e tem a assinatura do diretor Marcio Abreu e do ator Guilherme Weber como curadores. "Corpos, cidades, memória e a contracena na ocupação de espaços públicos" são os vetores da proposta da curadoria para o evento deste ano, a fim de estabelecer um diálogo entre artistas, cidade e sociedade.
Quando Abreu e e Weber assumiram a curadoria do festival, para a 25ª edição, um dos objetivos era exatamente conferir um eixo temático, além de instigar os artistas da cidade com coproduções e fomentar a reflexão além das apresentações, via formato de encontros, palestras e debates que integram as atividades que compõem as Interlocuções. "A arte é o único lugar de resistência social e não me refiro ao espaço burguês, mas pelas ruas,a todo instante, fazendo a nossa parte, atores e sociedade, entendendo que cada lugar é um lugar de ação em prol da saúde social, e no combate ao conservadorismo e ao ódio rasos. Não vamos semear isso", alerta. Ele e Weber prosseguem cultivando ideias e pensamentos em 2019. Há três anos, ao assumirem a curadoria, a dupla estabeleceu um prazo de três a cinco anos para ficarem à frente da missão.
Para o diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz, a decisão de trazer uma curadoria para a concepção do festival foi plenamente acertada. "A curadoria deu uma configuração para a programação do Festival. A proposta deste ano reforça a necessidade de se ocupar a rua, de que a arte pode transformar e que o limite do corpo é a expressão. Temas inerentes ao que permeia a sociedade atual", apontam. Sobre o fato desta edição em um ano de eleições majoritárias, tanto Abreu quanto Knopfholz ressaltam a importância do pensamento crítico permanente. "Essa curadoria entende a arte como manifestação política e não ideológica", afirma Knopfholz. "Temos o dever social de agir no mundo. Em tempos tão absurdos, a insurgência possível vem do feminino com todas os movimentos feministas, homossexuais, de mulheres negras, trans, travestis, que estão cada vez mais bem organizadas sob a égide do feminino para mudar essa sociedade na veia, por dentro, de forma a combater toda essa onda de violência, censura e retrocesso ", argumenta Abreu.
Sob a bênção dos orixás
Não por acaso, a estreia escolhida para descortinar a densa programação deste ano, na noite desta terça-feira (dia 27), no Teatro Guaíra, é o espetáculo "Gira" do grupo mineiro Corpo, que tem nessa coreografia uma das obras-primas de todos os tempos. Tendo como principal fonte de inspiração os ritos da umbanda, os bailarinos apresentam o universo das religiões afro-brasileiras por meio de onze temas musicais criados pelo grupo Metá Metá e coreografados pelo bailarino e coreógrafo Rodrigo Pederneiras. No espetáculo, são reconstruídos movimentos e gestos das "giras". Pederneiras representará Exu.
Além da abertura, a companhia realizará apresentações nos dias 28 e 29 de março com o programa duplo que inclui o espetáculo "Dança Sinfônica", concebido em 2015, em celebração aos 40 anos de atividade do Grupo Corpo, que contam com um conjunto de temas escrito para a orquestra Filarmônica de Minas Gerais e autoria do músico Marco Antônio Guimarães.
A programação 2018 contará com nove estreias nacionais e uma pré-estreia. A atriz paranaense Denise Stoklos, responsável pela criação do Teatro Essencial, no qual trabalha a identificação do ator com o personagem e suas significações, apresentará a obra em celebração aos seus 50 anos de carreira. Com o título "Denise Stoklos em Extinção", a atriz trabalha a ideia do autor austríaco Thomas Benhard, no livro "Extinção", de "aniquilamento das ideias nacionais vigentes" e de "sem a extinção de tudo não se consegue nova etapa". O espetáculo é uma das quatro coproduções deste ano com o Festival de Curitiba.
Outra estreia nacional, fruto de coproduçao e altamente recomendada pelo diretor Marcio Abreu é a peça "A Ira de Narciso", que tem a direção de Yara de Novaes e atuação de Gilberto Gawronski, trazendo a trajetória de autoficção do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco. Até então, a única montagem do espetáculo havia sido uruguaia e pela direção de Blanco. O desafio proposto pelos curadores do Festival ainda conta com a Celso Curi na montagem brasileira. "Um dos espetáculos que traduz a dimensão alcançada pelas frentes abraçadas pelo Festival", indica Abreu.
Ele também considera imperdível a performance "Se o Título Fosse um Desenho Seria um Quadrado em Rotação" de Eleonora Fabião e que se constitui uma série de quatro ações realizadas pelas ruas centrais, em dias úteis, intervindo no deslocamento de pessoas, objetos e materiais. "A ideia de diálogo com a cidade está inerente a esse projeto coproduzido com a Eleonora Fabião", observa Abreu.
A ferida da censura - "Domínio Público", criada a partir dos episódios de censura em 2017, traz no elenco o artista Wagner Schwartz (o homem nu da instalação do MAM - Museu de Arte Moderna) e a mãe Elizabeth Finger(que permitiu que a filha tocasse o homem nu) para discutir a intolerância e o conservadorismo, além de Renata Carvalho, atriz trans, protagonista de "O Evangelho Segundo Jesus Rainha do Céu" e Maikon K, que faz performances em espaços públicos apresentando-se nu dentro de uma bolha transparente. O espetáculo de dança "Inoah", a peça "Cabaret Macchina", a montagem francesa "Tristeza e Alegria das Girafas" e os espetáculos gratuitos "Colônia" e "The Machine To Be Another A Máquina de Ser Outro"(da Espanha) integram as estreias da 27ª edição. A montagem holandesa "Vamos Fazer Nós Mesmos Lets Do It Ourselves" também está entre os espetáculos internacionais da Mostra 2018. A banda Titãs realizará a pré-estreia nacional de "Doze Flores Amarelas", uma ópera-rock que apresenta heroínas em uma história de vingança.
No total, até o dia 8 de abril estão programadas 400 atrações entre performances teatrais, musicais, oficinas e palestras em lugares diversos, desde teatros à Kombi e à garagem do Teatro Guaíra, que será o local da peça "Salomé". Denise Stoklos, Denise Fraga, Tuca Andrada, Ricardo Tozzi e Luisa Arraes, Mel Lisboa, Reynaldo Gianecchini, Caio Blat, Renata Sorrah, Malvino Salvador e a banda Titãs estão entre os artistas mais conhecidos do público.
Serviço
Ingressos
Pelo site www.festivaldecuritiba.com.br ou aplicativo "Festival de Curitiba 2018" e nas bilheterias oficiais do evento, no ParkShoppingBarigüi, com funcionamento das 11h às 23h, de segunda a sexta; no sábado, das 10h às 22h e, aos domingos, das 14h às 20h; e no Shopping Mueller, de segunda a sábado, das 10h às 22h, domingos e feriados das 14h às 20h.
O valor dos ingressos para os espetáculos da Mostra vai de gratuito a R$ 70,00 (inteira) mais taxa administrativa.
Os preços para os espetáculos do Fringe variam de gratuitos a R$ 60,00 (inteira), além da taxa administrativa.
Clientes Ebanx têm desconto de 50% em espetáculos da Mostra e do Fringe.
O ingresso do MishMash custa R$ 40 (inteira) mais taxa administrativa.
O preço da entrada do Risorama é R$ 70 (inteira) mais taxa administrativa.
O Gastronomix, este ano, custa R$ 12 (não consumível) mais taxa administrativa.
O Guritiba custa R$40 (inteira) mais taxa administrativa.


