Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasMurilo Benício: ‘‘A minha proposta de ator não é ficar bonitinho’’O ator Murilo Benício resolveu adotar um novo método para trabalhar na tevê: simplesmente não assiste mais às suas cenas. A idéia é não se deixar influenciar com o que vê e manter a trajetória do personagem como o criou. A decisão tem cabimento. Na primeira vez que se viu no vídeo na pele do tímido Leonardo, em ‘‘Por Amor’’, o ator se achou feio e sua primeira reação foi pedir à maquiadora que melhorasse um pouco o visual do personagem. Só que a feiura é uma das características de Leonardo. ‘‘Decidi não ver a novela para não ficar tentado. Tenho de saber administrar a minha vaidade’’, argumenta Murilo.
Essa entrega de ‘‘olhos vendados’’, como define, é condizente com a trajetória do ator nascido em Niterói, no Estado do Rio. Quando estreou em ‘‘Fera Ferida’’ como o gari Fabrício, chegou a instalar uma gagueira, experimentada à vera na adolescência, no personagem. Em ‘‘Irmãos Coragem’’, levou o processo de composição do Juca Cipó ao extremo de serrar um pedaço do dente da frente.
O despojamento em cena que Murilo mostra é surpreendemente substituído por uma bruta timidez nos bastidores. O ator está sempre medindo as palavras e só deslancha ao falar sobre sua paixão por cinema. Aos 26 anos, casado com a atriz Alessandra Negrini - que faz a Paula, em ‘‘Anjo Mau’’ -, e pai do pequeno Antônio, de quase um ano, Murilo demonstra disposição.
Concilia as gravações de ‘‘Por Amor’’ com os ensaios da peça ‘‘Deus’’, dirigida por Mauro Mendonça Filho, prevista para estrear em janeiro. O contrato com a Globo até o ano 2001 deu a ele estabilidade financeira suficiente para pensar em projetos bastante pessoais. ‘‘Quero dirigir um filme. Tenho o esboço de uma história de amor maravilhosa. Só falta colocar no papel’’, diz empolgado.
Você resolveu deixar de ver ‘‘Por Amor’’ para não modificar o Leonardo. Altas doses de vaidade podem fazer mal ao personagem?
Murilo Benício - Essa é a minha quarta novela e as pessoas já me reconhecem. Então, não tem como não bater uma vaidade. Se eu visse a novela e quisesse consertar o personagem, significaria que eu não estaria sabendo administrar a vaidade de ator que tenho. É uma neura, mas é uma neura que todo mundo tem. Essa vaidade destrói a carreira de qualquer um. Vaidade é bom para se ter com namorada, não na profissão de ator.
Qual foi sua primeira reação ao se ver como o Leonardo?
Murilo Benício - Vi a primeira cena e me achei muito feio. Estava horrível e tinha de mudar. No dia seguinte, me vi pedindo para uma maquiadora para tapar uma espinha. Aí, decidi que não ia enveredar por esse caminho. Se o personagem é feio e me achei feio, estou fazendo bem. A minha proposta de ator não é ficar bonitinho. Se eu assistir a novela, vou travar e perder o rumo. É o primeiro trabalho que faço sem ver nada, mas vou usar o máximo de sinceridade. É um chute. No Juca Cipó, de ‘‘Irmãos Coragem’’, não me atrapalhava ver a novela porque era uma transformação de 100% e sabia que não era eu. Já no Leonardo, vi uma pessoa feia muito próxima de mim. Tenho consciência que a minha beleza não é óbvia.
O texto do autor Manoel Carlos tem sido elogiado por retratar cenas do cotidiano das pessoas. O que você acha?
Murilo Benício - Sempre digo que ele é o Chico Buarque das mulheres da novela. Ele é um autor extremamente feminino, apesar de saber escrever cenas legais para os homens também.
Enquanto ‘‘Por Amor’’ é elogiada, Vira-lata foi muito criticada. Por conta desses altos e baixos, muitos atores reclamam de fazer novela. Você se sente à vontade nesse formato de produção?
Murilo Benício - Muitas pessoas acham que novela sempre é uma arte menor. Mas a arte é você quem faz e eu estou a fim de me entregar. No Juca Cipó serrei um dente e raspei a sobrancelha. Acho que tenho uma coisa inata em mim para atuar. É muito mais uma necessidade que um prazer. Teve uma época na minha vida que eu passava por uma pesquisa tão constante de coisas que perdi a personalidade do meu andar. Ficava experimentando tanta coisa diferente que não sabia mais como eu andava. Sou assim. Sem nada, invento alguma coisa. Às vezes me chamam para fazer tal papel e é mais ou menos aquilo que experimentei outro dia. Então, acho que até construo os personagens antes que me chamem. Tenho uma entrega muito grande para o que faço.
Você ganhou o Kikito por sua atuação no curta-metragem ‘‘Decisão’’, de Leila Hipólito, no último Festival de Gramado. Isso foi importante para você?
Murilo Benício - Prêmio é besteira. É legal estar sempre fazendo trabalhos novos e as pessoas estarem vendo, mas a premiação é muito relativa. Às vezes, quem ganha merece, noutras não. Tem muita politicagem. Fazer uma coisa atrás de prêmio é completamente furado. Devo admitir que é sempre legal ganhar um prêmio, por ser um reconhecimento em última instância, embora não seja a coisa mais importante para o ator.
Já pensou em passar para o outro lado das câmaras?
Murilo Benício - Tenho idéias para filmes que quero dirigir. É uma idéia antiga. Tenho o esboço de uma história que é maravilhosa. Se eu conseguir colocar no papel, ganho outro Kikito. A história é sobre um cara que conhece uma menina, se casam e ficam felizes. Simplesmente, uma história de amor. Mas não iria atuar e sei que é muito difícil escalar elenco porque o espectador comum tem uma proximidade da televisão muito grande. Quer dizer, o público tem a sensação que os atores que fazem televisão são quase de casa e quando vê um ator que faz televisão no cinema, só vai comprá-lo se o ator estiver muito bem. Senão, vai falar ‘‘olha lá tal pessoa no cinema’’, em vez de ver o personagem. Tipo Eri Johnson, que nunca fez cinema, e se fizesse e não mostrasse que era outra pessoa, diriam ‘‘olha o Eri no cinema’’. A televisão dá uma proximidade muito grande. O ator fica íntimo das pessoas. O elenco teria de ser muito bem-dirigido, por isso não atuaria. Não poderia ter tempo de dispersão.

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