O autor que antevia o futuro
A primeira grande crise econômica do capitalismo, a corrida armamentista, a expansão imperialista, tudo passa a influir no conteúdo das novelas. Até então os personagens de Verne eram românticos, cheios de confiança num progresso indefinido e benéfico. Mas essa visão se torna desencantada, amarga, sombria. Concebida inicialmente como desprendida aventura cognitiva, a ciência passa a ser encarada por ele como subordinada ao controle dos poderosos e como instrumento de alienação. Particularmente uma de suas obras deste período, ''Os 500 Milhões de Begun'', seria reflexo desse pessimismo, aqui incluída a premonição da bomba atômica, o nazismo e o apartheid.
Talvez a maior prova deste Verne cético quanto às virtudes do progresso seja a anti-utopia ''Paris no Século XX'', novela há 150 anos recusada com firmeza pelo editor Hetzel (por ''lúgubre e fatalista''), e somente publicada em 1994. Para o ano de 1960, o escritor imaginou um futuro de metrôs apinhados de gente, um mundo áspero, um cotidiano perverso em que a eletricidade alimenta as ruas, a publicidade e a pena de morte. Uma megalópole de 10 milhões de habitantes, com avenidas congestionadas por automóveis movidos a gasolina, escritórios entulhados de aparelhos de fax e outras máquinas capazes de calcular a grande velocidade, e onde um moderno sistema de comunicação mantém conectados (a Internet?) os mercados financeiros e as grandes corporações multinacionais, sob a ameaça latente da destrutiva sofisticação de novos armamentos. Como sempre, mesmo pessimista, sua margem de acertos foi grande.
Era definitivo que a obra de Julio Verne, alguém que antecipou o futuro com mais lógica e acertos que a maioria dos escritores do gênero considerados primitivos (com a única exceção: H.G.Wells), tinha que ser um autêntico filão para o cinema, a arte que estava nascendo ao mesmo tempo que seus livros. Os textos de Verne estão entre os mais adaptados da literatura (aí é certo que ganha de Marx), e a partir de abordagens diversas, desde as aventuras rocambolescas à francesa (''As Atribulações de um Chinês na China'') até o enfoque hollywoodiano espetacular em tela imensa e elenco estelar (''A Volta ao Mundo em Oitenta Dias'', versão 1956). Mas foram outros títulos que mereceram tratamento mais respeitoso e abordagem mais séria, como ''Vinte Mil Léguas Submarinas'', ''Viagem ao Centro da Terra'' e ''Da Terra à Lua'' (novela adaptada, entre outros, pelo pioneiro e mago George Méliès, pai do cinema de ficção).
Julio Verne, morto em 24 de março de 1905, sentenciou pela boca de um de seus personagens: ''Nada acontece sem ter sido determinado por aquilo que o precedeu. O futuro está feito de prolongamentos do passado''. Na lápide de seu túmulo no cemitério de Amiens, o epitáfio: ''Rumo à imortalidade e à eterna juventude''.(C.E.L.J.)





