Gabriel García Márquez, que faz 70 anos hoje, é o homem de um livro só. E não há nada de pejorativo na definição. Certa vez, o escritor colombiano disse que os autores literários enfrentam o destino de voltar sempre a um tema obsessivo, espiritualmente central, como se a cada novo livro eles acrescentassem um capítulo à obra geral de suas vidas. Ele não se referia a escritores medíocres. Falava de outros homines unius libri: os autores que passam à história.
Não é tarefa simples determinar o substantivo principal da obra de grandes autores, e acredito que García Márquez errou ao generalizar sua conclusão. Que livro teriam escrito autores fundamentais como Shakespeare, Tolstói, Dante? Quando falamos desses três escritores, o Livro da Vida me parece o único nome completo. Com outros é mais fácil. Proust seria autor do Livro do Tempo. Tchekhov talvez tenha escrito o Livro da Desilusão. Dostoiévski, o Livro do Desespero. Poe, o Livro do Medo. Freud, o Livro do Inconsciente. Camus, o Livro do Absurdo. Trotsky, o Livro da Revolução. Sartre, o Livro da Liberdade.
Qual seria o livro de García Márquez? Ele mesmo responde: o Livro da Solidão. Certamente por ‘‘Cem Anos de Solidão’’, mas não apenas. Os sentimentos de abandono, separação, isolamento, silêncio, desamparo e exclusão - que cercam o homem solitário - são capitais na obra do colombiano. O fantasma do homem só percorre, de alguma forma, a essência de todos os seus livros. Há solidão mais extensa que a de um ditador que derrama a vida e a morte, aquele que não sabe mais se o que lhe dizem é verdadeiro ou falso? Pergunte ao ectoplasma de Josef Stálin ou leia ‘‘O Outono do Patriarca’’, que fala de um ditador partindo da espantosa imagem de sua velhice. Que solidão terrível não é a de um homem jurado de assassinato, só porque certa mancha de sangue, comprobatória da virgindade, não apareceu em um imaculado lençol de noiva? Encontra-se tal homem em ‘‘Crônica de uma Morte Anunciada’’. Você já tentou imaginar a angústia de um ancião militar, à espera de uma pensão que jamais chega? Está em ‘‘Ninguém Escreve ao Coronel’’.
‘‘Escrever é o ofício mais solitário do mundo’’, disse Gabriel García Márquez. O poder é insidioso porque, uma vez exercido, provoca solidão de qualquer maneira. Dentro dele, o homem se isola da realidade. Fora dele, é tomado por um sentimento de vazio. A literatura é um poder singular, individual, mas exigente como poucos. ‘‘As mentiras são mais graves na literatura do que na vida real’’, declarou García Márquez, que tem fama de mentiroso. Mesmo exagerada, a frase faz sentido, dentro da profissão que o colombiano escolheu. Ele compara o ofício de escritor ao do marceneiro. Mas, para construir sua cadeira ou sua mesa, o escritor precisa trabalhar um duro material: a verdade literária. Ou melhor, ele precisa criar um mundo que tenha credibilidade interna, vivo, jamais escravizado pela sensação de caos externo. O mais avassalador estranhamento literário é acompanhado de uma curiosa familiaridade. Em ‘‘Cem Anos de Solidão’’, a personagem Remédios, a Bela, sobe aos céus levada por lençóis. Nós acreditamos. Essa é a tarefa do escritor. Ele precisa elaborar um cosmos, mesmo que seja de moças voadoras, a partir da suposta algaravia do mundo. Nessa guerra de apenas um soldado, o maior inimigo é a falta de comunicação. Sair da enrascada, diante da folha em branco, é um trabalho solitário.
García Márquez sempre falou: se uma idéia não for suficientemente boa para durar vários anos, ela deve ser abandonada. Entre a idéia e a realização final, o romance ‘‘Cem Anos de Solidão’’ (1967), levou quase duas décadas para ser escrito. É a saga de uma família cujas gerações atravessam um século, no mítico povoado de Macondo, perdido na selva colombiana. O livro espelha a cultura latino-americana: reúne os mitos, as lendas, a malícia, a luta de classes, as guerras, as superstições, a braveza, o colonialismo, a vida familiar, o calor, a honra, os pesadelos domésticos. A partir do Caribe, García Márquez cria o vínculo universal, cosmológico. Aquelas gerações de personagens com nomes iguais - Aureliano Buendía e José Arcadio Buendía, ad infinitum - nos confundem e nos amarram à história. Em alguns instantes, a leitura de ‘‘Cem Anos de Solidão’’ lembra a de ‘‘Guerra e Paz’’, de Tolstói, quando precisamos voltar algumas páginas para ver quem é parente de quem. Nessa obra de García Márquez, quase todos são parentes de todos. Nós é que precisamos nos familiarizar. E conseguimos. Todos temos o nosso Macondo particular. Todos conhecemos, um dia, aquele coronel Aureliano Buendía que lutou 32 guerras e perdeu todas.
‘‘Cem Anos...’’ é a liberação do universo infantil de Gárcia Márquez. Ele nega que seja uma obra de fantasia. Segundo o autor, tudo está baseado na realidade da Colômbia, na rotina de um clã destinados ao desamor, condenado à extinção. Para ele, o real do mundo latino é mais fantástico que o sonho do mundo cartesiano. Pestes de insônia, chuvas que caem durante anos, trens carregados de cinco mil cadáveres, fantasmas de parentes, tudo é realismo para García Márquez. Inacreditável, absurdo, irracional? Mas um prédio que virou areia no domingo de Carnaval também não parece fantasia? García Márquez, repórter de profissão, aprendeu a usar os segredos da rotina.
Além do aprendizado jornalístico e das influências literárias mais marcantes - Faulkner, Joyce, Kafka, Virginia Woolf, Graham Greene -, seus grandes mestres de prosa foram os avós maternos, que mantinham o rosto impassível ao contar as histórias mais fantásticas. A tradição oral dos avós colombianos deu o tom de ‘‘Cem Anos de Solidão’’: o autor fala do que é supostamente mágico, mas tem o estilo e a naturalidade de um velho contador de histórias. Não é o escritor típico da chamada latinidad - seja lá o que isso for! Jamais foi autor exótico para inglês ver. Onde outros vêem o típico e o mágico, García Márquez recria a identidade do continente segundo padrões universais e históricos. A América Latina é o cenário perfeito para as torrentes de espírito, plasma, neurônios e sêmen que jorram de seus personagens. Mas, em Macondo ou qualquer outro lugar de García Márquez, o leitor não está diante de curiosidades etnológicas, como tantas obras que vemos temperadas com azeite de dendê. Ao contrário, no Livro da Solidão vemos tipos que não estariam deslocados em Faulkner, em Kafka, nas ‘‘Mil e Uma Noites’’.
García Márquez escreve diariamente, das nove horas da manhã às três da tarde. Já falou que há dois lugares ideais para fazer isso: o bordel e a redação de jornal - porque funcionam em horários singulares, são tranquilos pela manhã e frenéticos à noite. Ele concebeu seus primeiros livros após o fechamento da edição do diário ‘‘El Espectador’’, de Bogotá. ‘‘À noite, depois que todos tinham ido para casa, ficava escrevendo meus romances. Gostava do barulho das máquinas de linotipo, que soavam como chuva. Se elas paravam e tudo ficava em silêncio, eu não conseguia trabalhar’’. Agora, García Márquez não usa mais o bordel ou a redação - bastam a máquina elétrica e algumas flores amarelas, em casa. E garante: ‘‘Enquanto houver flores amarelas por perto, nada de ruim pode acontecer’’.
Depois do Prêmio Nobel, recebido em 1982, ele publicou ‘‘O Amor nos Tempos do Cólera’’ (1985). É um livro marcante pelo viés de solidão que expressa: um homem apaixonado vence a desilusão e espera anos, ao mesmo tempo paciente e inconformado, pela mulher que ama acima de tudo. A conclusão poética do livro vem na velhice do protagonista, em um barco que segue sem paradeiro.
Em nosso tempo, a obra de García Márquez tem a evolução de uma consciência solitária. Como a ditadura latino-americana, o povoado de Macondo ou o barco dos tempos de cólera, a lucidez se expande por todos os lados mas está condenada à entropia, a ser levada pelo vento do destino. Está condenada, mas humanamente prossegue na luta. Por mais realidades que a consciência possa expressar, sempre há um âmago de mistério e ignorância, de dúvida e escuro, de injustiça e impotência, de absurdo e frouxidão, de desespero e anarquia, de morte e vazio. Diante da solidão, o homem se vê diante do puro eu e pergunta, com medo, sem esperar pela resposta: POR QUÊ? Enquanto tivermos ao lado bons contadores de histórias, como Gabriel García Márquez, haverá um amparo dentro do caos, em direção a tudo que o homem construiu de bom, e a despeito das adversidades. Com a literatura e as flores amarelas, sempre haverá mais um capítulo no Livro da Vida.

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