Foram longos três anos desde o estrondoso sucesso de Jagged Little Pill. Alanis Morissette, a canadense de 24 anos que começou a sua carreira aos 9 apresentando o programa infantil You Can’t do That on Television, volta à mídia com um disco mais maduro e muito mais introspectivo. Supposed Former Infatuation Junkie, na verdade, continua abordando os mesmos temas que fizeram Jagged Little Pill alcançar a marca de 28 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo, como conflitos pessoais e antigos namorados. As canções ficaram mais leves, os acordes mais amigáveis, mas o poder de fogo que Alanis tem em expôr na forma de músicas sua vivência está maior do que nunca. Em apenas uma semana nas lojas, Supposed Former Infatuation Junkie atingiu a marca de 2 milhões de discos vendidos em todo planeta.
Depois de passar um mês na Índia refletindo sobre o seu futuro e desmistificando os problemas da vida, Alanis Morissette está de volta. Em turnê promocional pela América do Sul, a cantora concedeu, ontem, uma entrevista à Folha e outros jornais, no hotel onde estava hospedada, em São Paulo. Confira a seguir os melhores trechos.
Você passou por um amadurecimento muito grande na sua vida e isso está refletido nas letras. O que causou essa mudança?
Isso aconteceu ao poucos. Evolução é uma questão de tempo. Todas as músicas que eu escrevi depois dos nove anos refletem essa evolução. Eu parei durante um ano e meio depois de Jagged Little Pill e esse ano de descanso me ajudou a me refazer de toda aquela loucura.
O que mudou em seu processo de composição em comparação ao seu disco anterior?
Dessa vez houve mais liberdade e menos preocupação com a estrutura. Do lado emocional eu me permiti reagir às coisas que me tocam e ao mesmo tempo ter mais responsabilidade. Atualmente me sinto mais atraída por acordes menores e brinquei com instrumentos diferentes.
Você tem um lugar especial na sua casa reservado para escutar música?
Na verdade eu não escuto tanta música como eu poderia, porque eu amo o silêncio e minha vida já é muito barulhenta. Agora que eu pude parar de escutar minhas próprias músicas, estou ouvido PJ Harvey e Laurin Hill.
O que você fez realmente nessa viagem à Índia?
Tive a oportunidade de liberar a sensação de controle que achava que eu tinha. Viajar com uma mochila e sair da América do Norte com minhas tias, minha mãe e algumas amigas realmente foi uma sensação de liberdade para mim.
Nesse tempo em que você ficou parada entre um disco e outro, teve mesmo vontade de parar de cantar?
Em alguns momentos eu estava pensando em não fazer isso de novo. Não porque eu não quisesse escrever músicas, mas porque não sei se gostaria de enfrentar tudo de novo.
Courtney Love afirmou recentemente que você está acabando com o feminismo no mundo da música. Você concorda?
Eu espero que tenha feito isso porque eu acredito mesmo é no humanismo. Existem três fases: você sai de uma sociedade patriarcal, passando pelo chovinismo e depois o feminismo e - finalmente - o humanismo. Isso, de certa forma, é tentar diminuir as distâncias entre os gêneros.
Jagged Little Pill abriu as portas da mídia para uma série de cantoras como Fiona Apple, Paula Cole e Jewel exporem suas mazelas e problemas pessoais. A que você atribui o sucesso de todas essas cantoras?
Acho que algumas mulheres podem ter se inspirado no que eu fiz. O disco pode ter feito com que as pessoas ficassem mais abertas a ouvir isso e quanto a dizerem que eu fui responsável não acho que seja verdade, porém me sinto um pouco culpada também. Mas acho que bem antes de mim já existiram mulheres que escreveram letras como as minhas.
Até que ponto suas músicas são realmente autobiográficas?
O disco todo é autobiográfico. E mesmo que eu tivesse falando de outra pessoa, haveria a minha perspectiva na história. Mas, para mim, escrever uma música é uma experiência catártica e eu gosto de falar o que está no meu subconsciente.
No clip e no disco você aparece nua. Por que?
Tentei expressar a essência de todo o disco. A nudez vem de uma presença que eu sinto, uma realidade crua e uma falta de preocupação comigo mesma. Quero deixar claro que meu corpo não representa mais um ornamento, um enfeite, como a sociedade muitas vezes exige. É mais um instrumento e menos um objeto da sociedade.
Depois do sucesso de Jagged Little Pill você ficou parada um ano e meio para tentar esquecer um pouco toda a loucura que vinha acontecendo. O que passa pela sua cabeça quando você imagina que tudo isso vai começar de novo?
Quando o disco foi lançado eu realmente não estava nem um pouco preparada para tudo aquilo que viria a acontecer. Realmente eu não imaginava as proporções que as coisas iriam tomar. Hoje em dia estou muito mais preparada para tudo e sei que não terei os mesmos problemas de antes.
Para finalizar, como é ter a Madonna (N.R.: Madonna é dona da Maverick, selo que contratou Alanis) como sua chefe?
Ela me apoiou desde o primeiro dia, mas sempre me tratou de igual para igual. Essa coisa de que a gravadora é dona do artista não existe.Claúdia OgrizeckAlanis Morissete: ‘‘Escrever uma música é uma experiência catártica e eu gosto de falar o que está no meu subconsciente’’Ricardo Moreno
Especial para a Folha

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