Amanhã,
comemoram-se
os 100 anos de
nascimento de
Procópio Ferreira,
o grande mito dos
palcos brasileiros
Marcos Losnak

Especial para a Folha2

Sr. Ferreira, próspero comerciante português do Rio de Janeiro, sonhava em ter um filho doutor, advogado. Não poupou esforços para colocar um deles, o pequeno e narigudo João Álvaro Quental Ferreira, na faculdade de Direito.
Tudo caminhava bem até que um belo dia descobriu que o rapaz matava as aulas de Direito para frequentar um curso de teatro. Sr. Ferreira não se conteve, colocou as roupas do rapaz numa mala e jogou-a pela janela, gritando os mais variados palavrões.
Expulso de casa, João Ferreira entregou-se de corpo e alma ao teatro. Pisou pela primeira vez no palco em 1917, no Teatro Carlos Gomes do Rio, num minúsculo papel da comédia ‘‘Amigo, Mulher e Marido’’. Julgando seu nome nada teatral, trocou o primeiro, João, por Procópio. Procópio Ferreira.
Assim nasceu um dos nomes mais cultuados das artes cênicas brasileira. Considerado uma espécie de pai do teatro cômico brasileiro (herdeiro de Francisco Correia Vasques e João Caetano), Procópio Ferreira tornou-se o grande mito dos palcos durante várias décadas, com popularidade do Oiapoque ao Chuí.
Reprodução...e em ‘‘O Avarento’’, de MoliSre
fotos cd3 C 7, cd3 D 7, cd3 E 7 e
cd3F7Falecido em junho de 1979, Procópio deixou suas impressões digitais na história do teatro brasileiro. Trabalhou como ator durante 60 anos atuando em mais de 400 peças. Seu espetáculo ‘‘Deus lhe Pague’’, com texto de Joracy Camargo, foi apresentado de 1932 a 1968 com a cifra histórica de 3.621 apresentações. Numa época em que não existia televisão, os espetáculos cômicos do ator eram diversão obrigatória.
Em homenagem ao centenário de seu nascimento, comemorado amanhã, o canal a cabo Multishow exibe, hoje às 22 horas, um especial sobre a vida e a obra de Procópio. Entre os participantes estão sua filha Bibi Ferreira e o dramaturgo Dias Gomes. A Funarte também lança hoje no Rio o livro ‘‘O Mágico da Expressão’’ com imagens raras do ator, além de reeditar ‘‘O Ator Vasques’’, obra escrita em 1939 em que Procópio defende Vasques (ator do séculos passado) como o criador do teatro cômico brasileiro. A Editora Record promete colocar nas livrarias, em dezembro, sua biografia ‘‘O Atleta da Palavra’’ de autoria da pesquisadora Jalusa Barcelos.
Nascido em 8 de julho de 1898 (algumas fontes registram seu nascimento em 8 de junho), no Rio de Janeiro, Procópio fundou sua própria companhia em 1924. Não se constrangia em alterar textos, personagens, e cenas para atuar como protagonista. Em 1942, no espetáculo ‘‘O Inimigo das Mulheres’’, lançou Bibi Ferreira, sua filha, como atriz. Atuou em 13 filmes nacionais, desde 1924 (‘‘A Quadrilha do Esqueleto’’) até 1958 (‘‘O Homem dos Papagaios’’). Foi um dos grandes responsáveis pelo apogeu da comédia de costumes nas décadas de 30 e 40. Trabalhou em operetas, revistas e chanchadas. Sobre estas últimas, declarava que não lhe agradavam muito, mas davam um bom dinheiro: ‘‘Eu nunca fiquei satisfeito com determinadas chanchadas que eu tinha até vergonha de representar. Mas quando meu secretário vinha me dizer que tinha esgotado a lotação, eu ficava maravilhado.
Seus trabalhos estavam todos pautados naquilo que chamava de ‘‘respeito ao público’’: ‘‘Toda arte é comercial, é comercial, toda ela. O fato é que a arte é comercial. Você não deve oferecer ao público aquilo que o público não quer. Por que eu sempre ofereci ao meu público peças para fazer rir? Porque o público quer rir, o público precisa rir.
Para atingir seu objetivo utilizava, se fosse necessário, até a auto-ironia: ‘‘Carrego a fatalidade de ser traído por mim mesmo: sou modesto, modestíssimo, e no entanto a Natureza, no volumoso apêndice nasal que me ofertou, faz crer ao mundo que sou tão pretensioso, a ponto de exibir um nariz maior que os outros’’.
No palco, dialogava e contracenava muito mais com o público do que com seus companheiros de palco. Este era seu estilo. O crítico paulista Décio de Almeida Prado, em seu livro sobre Procópio Ferreira, ‘‘A Graça do Velho Teatro’’ (Editora Brasiliense, 1984) define da seguinte maneira o trabalho do ator: ‘‘A verdade é que Procópio, fiel a seus princípios, pensava no palco com extrema clareza e graça. Transmitia o que continham as palavras e também o que elas não diziam, com essa capacidade de comunicar diretamente a idéia ou o sentimento recôndito que caracteriza a arte de representar. E aí entrava, por completo, no jogo de inflexões, no tom que subia e descia a escala musical, na parte relativa ao rosto, à boca, aos olhos. Ele executava com suma habilidade essa manobra que deve executar o bom ator cômico: distanciar a personagem, isto é, desvendar-lhe a face aparente e a face oculta. Observá-la, retratá-la, e, ao mesmo tempo, criticá-la, desmistificá-la para o público’’.
Esta característica marcante de Procópio (bem como de Oscarito), em que o espetáculo é construído com sua aparente destruição, seria resgatada pela televisão nas décadas posteriores no trabalho humorístico de Chico Anísio, Jô Soares e Os Trapalhões.
Embora a televisão, a partir da década de 70, tenha abocanhado parte do público do teatro, Procópio não a condenava como veículo. Numa entrevista de 1977, declarou: ‘‘Não sou totalmente contra a televisão, ela tem muitas coisas boas. Só não admito a verdadeira preguiça dessa gente de hoje que se acomoda diante do vídeo. É verdade que falta motivação, mas o que falta mais ainda é cultura suficiente para saber diferenciar as coisas’’.
Procópio ergueu sua arte numa época que em o teatro era totalmente pautado no ator. O ator era o teatro. Não havia ainda o teatro do autor, ou mesmo o teatro do encenador. Isso conferia à sua pessoa um forte carisma, o objeto artístico de adoração do público. Seu estilo de interpretação conquistava multidões.
Entre o mito e uma leitura histórica mais ampla, Décio de Almeida Prado resume sua visão de Procópio da seguinte forma: ‘‘A verdade, inteira, que só digo agora, é que a sua personalidade, não obstante traços simpáticos, de uma simpatia bem à brasileira, sempre me pareceu não estar no mesmo nível do seu talento interpretativo. Foi um grande ator, não um grande homem de teatro. Se tivesse sido menos complacente consigo mesmo, se não considerasse o palco tão primordialmente como uma fábrica de gargalhadas para o público e uma fábrica de dinheiro para o comediante, subiria provavelmente a altitudes bem mais elevadas - aquelas, por exemplo, onde se dissolvem as fronteiras entre o cômico e o dramático ou onde a graça se transfigura misteriosamente em poesia’’. Procópio contentou-se apenas em fazer rir - ninguém talvez contribuiu tanto e de forma tão continuada para manter a alegria em nosso palcos. Que esse título baste para a nossa gratidão e para sua glória.

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