Várias pessoas podem fazer a seguinte indagação: por que o guitarrista da banda Titãs, Tony Bellotto, se aventurou na carreira literária? A resposta pode ser múltipla e variada. Mas o fato é que qualquer ser humano pode se aventurar onde bem entender e desejar. Apenas o resultado da empreitada pode ser alvo de apreciação.
Tony Bellotto, aos 40 anos de idade, acaba de chegar ao seu terceiro livro, ‘‘BR 163’’, lançado pela Companhia das Letras. Fiel ao estilo de suas obras anteriores – ‘‘Bellini e a Esfinge’’ (1995) e ‘‘Bellini e o Demônio’’ (1997) – faz do gênero policial sua praia literária.
‘‘BR 163’’ reúne dois textos interligados, o conto ‘‘A Menina Tatuada’’ e a novela ‘‘Oeste, Selene’’. Estradas e cidades do interior de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul são os ambientes básicos das duas histórias policiais, algo pouco comum entre as narrativas do gênero produzidas na atual literatura brasileira. Outro detalhe: ambas são protagonizadas por mulheres no interior de um universo estritamente masculino.
A história de ‘‘A Menina Tatuada’’ é narrada por Lavínia, uma policial federal que sai em sua primeira missão de campo. Ao lado de um experiente investigador chamado Cardoso, enfrenta o desafio de prender um contrabandista de uísque paraguaio no interior de São Paulo. Viajando num velho Opala, Lavínia e Cardoso possuem, aparentemente, um mesmo objetivo: perseguir e prender o tal contrabadista. Mas as coisas não são bem assim – na realidade os interesses são distintos.
O conto apresenta duas narrativas paralelas. Na primeira, Lavínia descreve a operação de perseguição. Na segunda uma breve história de sua vida. Ela foi abandonada num orfanato de freiras com apenas três meses de idade. Cresceu na instituição e acabou concluindo a faculdade de Direito. Seu primeiro emprego foi na Polícia Federal, carimbando passaportes. Na sequência, tornou-se investigadora.
Utilizando o poder de seu distintivo, se empenha na difícil tarefa de encontrar suas origens – mãe e pai. Tarefa complicada e sofrida. Em sua primeira missão, a busca do traficante, é uma rara oportunidade de Lavínia unir seu passado com seu presente. Algo que só ela sabe e esconderá no cofre do peito. A narrativa utiliza por Tony Bellotto é seca e dura. Só se justifica por se tratar da voz da personagem Lavínia, uma mulher endurecida pelo destino.
O segundo texto da obra , ‘‘Oeste, Selene’’ conta a história de uma garota de programa chamada Selene que entra numa façanha inesperada: ajudar o pai a fugir da penitenciária de Presidente Venceslau (interior de São Paulo), onde cumpre pena por estelionato. Diante de um erro de fuga, a única opção dos envolvidos é pedir a ajuda de traficantes de cocaína. Aí a barra fica pesada. Um dos personagens de ‘‘A Menina Tatuada’’ estará presente no destino da Selene, interligando as duas histórias.
Uma perseguição policial e amorosa (um dos policiais está apaixonado pela jovem) atravessa rodovias invertendo pólos. Após fugir da prisão, o pai da moça, por exemplo, enlouquece diante da liberdade – ou diante da ausência de prisão. O jovem que deveria realizar a fuga meramente por dinheiro, abraça a causa por uma questão ‘‘ética’’ e sentimental.
A fuga é uma verdadeiro ‘‘on the road’’ onde todas as forças masculinas que comandam a situação acabam morrendo uma a uma. Ao final, permanece apenas Selene (assim como no texto anterior apenas Lavínia) diante de um mundo que pouco resta a ser feito, a não ser ajustar as contas com a liberdade e com o passado.
Fazendo uso de uma narrativa mais fluída, Bellotto mostra um trama relativamente simples e ao mesmo tempo melancólica para Selene. Apresentando a fuga pelas estradas do interior de três Estados, realiza uma espécie de literatura policial com características regionalista. Os fatos não acontecem nas ruas de Nova York, Londres, Barcelona, São Paulo ou Rio de Janeira. Mas em cidades como Umuarana e Cruzeiro do Oeste. Os personagens comem pastel acompanhado de caldo-de-cana. Uma constextualização real e culturalmente palpável.
‘‘BR 163’’ deixa claro que Tony Bellotto ainda não realiza uma literatura devidamente depurada. Mas, dentro do gênero e estilo em que trabalha, revela-se coerente e com umas algumas doses de originalidade. Se comparado à sua atuação nos Titãs – banda que assinou por duas vezes consecutivas, nos últimos trabalhos, o próprio atestado de óbito – Bellotto deveria abraçar com mais afinco a literatura.
•BR 163 - De Tony Bellotto, Editora Companhia das Letras (telefone: (11) 3846-0801 / internet: www.companhiadasletras.com.br), 216 páginas, R$ 25,00.

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