Rio, 09 (AE) - O artista plástico espanhol, radicado em Nova York, Antoni Muntadas chega ao Brasil em dose dupla. A partir de hoje ele tem seu trabalho "Projetos" em exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio e, a partir do dia 15, chega a São Paulo com a mostra "Brasil, Tudo Bem, Tudo Bom", na galeria Luiz Strina. Em ambas, usando suportes variados e integrados, o tema recorrente em sua obra: a paisagem dos meios de comunicação e a manipulação que se faz com ela.
"Projetos" é um conjunto de painéis luminosos criado originalmente para a Fundação de Arte e Tecnologia de Madri. Neles, que têm de 3 a 5 metros de área, o artista juntou textos do crítico e historiador de arte Eugene Bonet, com imagens (fotos e vídeos) colecionadas ao longo dos anos. "Sempre trabalho em uma ou mais obras porque levo de três a oito anos entre concebê-las e concluí-las", conta ele, num excelente "portunhol", fruto de suas muitas visitas ao País, especialmente a São Paulo.
Em alguns casos, Muntadas usa imagens fixas ou em movimento amplamente divulgadas pela mídia e as junta a textos, mas em outros produz ele mesmo a imagem. Como no vídeo em que aparecem só as mãos de um político discursando, enquanto o som se assemelha a frases, mas imagem e som estão desconectados. "Quero desconstruir a imagem criada pelos meios de comunicação para mostrar a manipulação do poder, como ela é e evidenciá-la"
explica. "Venho juntando num grande arquivo todas as imagens que encontro e que, um certo dia, acabo usando".
As fotos e imagens de "Projetos" vêm sendo recolhidas desde 1974, mas as mais recentes são do ano passado e foram criadas especialmente para a exposição do MAM. O título é "Cimeira" e o tempo de concepção foi recorde, pois a peça surgiu quase por acaso. "Estava no Rio, em julho, conhecendo o espaço onde essa mostra ia ocorrer, quando me deparei com operários desmontando o cenário onde tinha sido realizado, até a véspera, a Cimeira, aquele encontro de chefes de Estado latino-americanos", diz. "E o interessante é que, no avião em que cheguei ao Rio, eu havia recortado de uma revista uma fotografia de todos os presidentes, pensando que poderia ser útil futuramente".
Segundo o artista, a cena com que ele se deparou era a destruição do palco onde os governantes representaram um papel, a situação ideal para mostrar ao público o processo, ao contrário, de como as imagens são manipuladas para formar uma paisagem que só existe nos meios de comunicação, a serviço do poder. "Me senti como se estivesse entrado nos bastidores dessa cena e fiz um painel com fotografias em preto-e-branco do trabalho dos operários e, ao centro, duas em cores, dos presidentes posando oficialmente". Em São Paulo - Se o carioca vai ter contato direto com a obra de Muntadas pela primeira vez em "Projetos", ele é velho conhecido dos paulistanos, pois já participou de bienais e mostras na cidade, que visita constantemente. "Brasil Tudo Bem, Tudo Bom" é a continuação de uma série que começou na Espanha e se baseia em frases que se popularizaram numa cultura. "Tudo bem, tudo bom é uma expressão por que me apaixonei quando vim aqui pela primeira vez e vi todo mundo falando assim, embora os problemas fossem visíveis até a quem lhes virava o rosto", lembra ele. "Mas ao mesmo tempo é um reflexo da atitude do brasileiro perante a vida".
Novamente Muntadas usa fotos e frases em painéis, juntando-os de forma a refletir as causas e as consequências do mote. O projeto começou nos anos 70, na Espanha, de onde ele tinha saído no início da década, entediado com o franquismo e o marasmo cultural de Barcelona, sua terra natal. "Havia um político que usava quase como slogan a frase España va bien! e isso não correspondia à realidade e sim a um desejo que ele captava e manipulava", diz o artista. "Já nos anos 80, fui a Colômbia e vi um vídeo dos guerrilheiros, em que eles respondiam à repressão americana ao tráfico dizendo Colombia is doing well (Colômbia está fazendo bem)".
A trajetória artística de Muntadas está ligada aos países que percorreu. Originalmente ele era pintor e, ao mudar-se para Nova York, em 1971, caiu em cheio na efervescência cultural que juntava todos os tipos de arte num movimento cujos reflexos são sentidos até hoje. "Nessa época, tive contato com artistas brasileiros, como Hélio Oiticica e Cildo Meirelles, que considero irmãos", conta. "Foi aí também que comecei a abandonar a pintura para procurar outros meios de expressão em que pudesse falar com mais propriedade da paisagem criada pelos meios de comunicação".
O artista reconhece que essa mudança (e suas viagens pelo mundo) tiraram de seu trabalho uma conotação nacional. "Hoje acho que um trabalho tem a nacionalidade do lugar onde ele é feito", teoriza. "Em cada lugar tenho influências que uso no que faço".

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