'O Artista' e o fascínio dos anos 20
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de março de 2012
Luiz Carlos Merten <br> Agência Estado 
São Paulo - Michel Hazanavicius está, compreensivelmente, feliz da vida com o sucesso de ''O Artista''. Em entrevista por telefone, antes mesmo da consagração no Oscar (em que levou os prêmios de Melhor Diretor, Filme, Ator, Figurino e Trilha Sonora Original), o diretor explicou por que fez um filme mudo, sobre um astro decadente de Hollywood nos anos 1920.
''A grande comédia de Hollywood foi minha porta de entrada para o cinema. E eu amava o que havia de dramático em Charles Chaplin, em Buster Keaton. Não sei dizer, exatamente, como o projeto se desenvolveu no meu imaginário. Mas, de repente, ele estava lá. Era uma coisa que me perseguia. Quando, finalmente, recebi o sinal verde, o roteiro saiu em menos de um mês, de tal forma ele já existia na minha mente.''
Um filme sem diálogos - mas sonoro. O som é fundamental em ''O Artista''. ''Sabia desde o início que o som teria de ser muito sofisticado e ele foi elaborado com os melhores técnicos da França. Existem cenas que, mesmo não sendo dialogadas, dependem integralmente do som.''
Na trama, Dujardin é o artista, um grande astro do silencioso. Com o som, sua carreira vai por água abaixo e a jovem que era uma figurante no filme dele vira uma estrela. Começa a decadência. Mas ela o ama. E o herói tem seu cachorrinho.
O cachorro é um personagem à parte. Inteligente, rouba as cenas e salva Dujardin, correndo atrás do guarda para pedir ajuda quando o herói necessita dela. Como Dujardin contracenou com ele? ''É o mais maravilhoso do cinema. O cão é um cão. Pode ser treinado, mas tudo o que o espectador lhe atribui - inteligência, sensibilidade - é só uma projeção do público'', diz Hazanavicius.
Como o som, a fotografia é deslumbrante. O repórter evoca François Truffaut, que dizia que os filmes em preto e branco eram mais bonitos. ''Entendo perfeitamente, mas a cor se impôs de tal maneira que o verdadeiro anacronismo de O Artista, para os exibidores e distribuidores, não era o cinema mudo, mas o PB. O pior é que, com raras exceções, a cor não tem hoje muita elaboração. Os filmes são coloridos, e pronto. Preto e branco virou sinônimo de arte e tem, necessariamente, de ser mais cuidado.''


