São Paulo, 11 (AE) - Artur Barrio, como o Giotto idealizado por Pasolini no cinema, pensa que sonhar uma obra é mais importante do que realizá-la. Na Nova Galeria, suas instalações parecem mesmo dizer ao espectador que ele não está diante de uma obra concluída, mas em progresso, uma vez que esses trabalhos não são representações formais de situações, mas a própria situação. Dito de outro modo, o trabalho de Barrio é fruto de sua experiência existencial. Quer estabelecer uma relação intersubjetiva para salvar a arte de sua agonia.
Essa pulsão existencial pode ser violenta, como o foi nos anos 60, quando Barrio espalhou trouxas ensaguentadas pelo Rio, confundidas com corpos despejados em ribeirões pelo regime ditadorial. Pode ser sexual, porque, afinal, os anos 60 não foram apenas terror e miséria, mas sexo e liberdade. A exposição na Nova Galeria, em São Paulo, tem as duas coisas. Há carne, sexo e bastante sal grosso espalhado pelo chão, mas não o livro de carne crua exposto na 1.ª Bienal do Mercosul.
Barrio colocou apenas pequenos nacos de carne na escada que dá acesso ao primeiro andar da galeria. No térreo, ele interferiu na imaculada parede branca, escrevendo com lápis mensagens um tanto cifradas para quem desconhece a evolução da arte contemporânea brasileira. A primeira idéia, no entanto, é a da demolição de uma ordem construtiva que orientou essa arte nos anos 60 e rendeu bons frutos (o concretismo). Por que, então, essa demolição? Para afirmar a autonomia da imagem e liberar o espectador da prisão racionalista.
Quando Barrio recolhe fragmentos da Baía da Guanabara e encerra essa matéria na clausura de uma moldura de vidro, ele não está criando uma metáfora, mas investindo contra a representação. A explicação mais detalhada está no mesmo andar, numa instalação em que pastas vagabundas de plástico traduzem o fenômeno da mutação cromática para que o espectador se dê conta de uma outra poética da matéria, que vem, paradoxalmente, de sua desmaterialização. Para ver a arte é preciso negar a representação, construir e depois destruir o objeto. Uma trajetória que os galeristas ainda não entenderam. (A.G.F.) Serviço - Artur Barrio. De segunda da sexta, das 11 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Nova Galeria. Rua Estados Unidos, 1.581, tel. 3064-9496. Até 4/12.

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