Curitiba – O primeiro livro-solo da poeta Etel Frota será lançado hoje, exatamente no dia em que ela completa 50 anos de idade. A paranaense, que nasceu em Cornélio Procópio, estudou em Londrina e está há 20 anos em Curitiba, não deixou por menos: seu livro é também um CD, que traz poesias faladas e cinco canções, também feitas por ela e seus parceiros.
O livro tem apresentação do poeta Thiago de Mello, de quem Etel emprestou a idéia para o nome: ‘‘Artigo Oitavo’’, baseado nos ‘‘Estatutos do Homem’’, obra do escritor amazonense. No artigo oitavo, ele escreveu: ‘‘Fica declarado que a maior dor sempre foi e será sempre/ não poder dar amor a quem se ama/ e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor’’.
O CD, que é encartado no próprio livro, teve a produção, supervisão e participação especial de Rodolfo Stroeter. Ele ficou dividido em uma parte de poesia falada e outra de canções, nas quais existem participações especiais de cantoras, entre as quais está a premiada e excelente Mônica Salmaso.
A trajetória de Etel Frota é inusual. Ela, quando criança e adolescente, estudou piano, mas nunca se aprofundou na parte criativa da música. Na universidade, optou pela Medicina e foi uma estudante combativa na medida do possível, nos tempos da ditadura. Daquela época, guardou a mania de colecionar canções de Chico Buarque e Aldir Blanc. De literatura, preferia a engajada de Thiago de Mello e Ferreira Gullar.
Formou-se em Medicina e abandonou de vez o lado artístico. Este só foi recuperado quando já havia feito 41 anos. ‘‘Tinha poemas guardados em gavetas, no consultório, que era uma maneira de sobreviver a algumas perdas e dores’’, lembra a autora. Ela, então, mostrou os escritos, que não tinham intenção de serem públicos, a uma amiga escritora, Maria Célia Fantin. A amiga a forçou a inscrever os poemas em um concurso no Paraná.
‘‘Não deu em nada, não ganhei nada, mas esse foi o momento em que me voltei para a poesia com mais coerência’’, explica. Ela viu em um antigo quadro com os ‘‘Estatutos do Homem’’ que o artigo oitavo poderia dar uma unidade naquelas palavras sobre perdas. Ela mandou uma carta para Thiago de Mello falando sobre tudo o que se passava. ‘‘Ele foi muito generoso e me mandou cartas belíssimas’’, diz Etel.
A poesia foi tomando tanto espaço na vida dela que acabou colocando a Medicina em segundo plano. ‘‘Não dei conta desta esquizofrenia’’, explica. Hoje, vive exclusivamente dedicada à literatura.
Há dois anos inscreveu o projeto do livro e CD na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, de Curitiba. Projeto aprovado, como ela mesma explica, ficou fixado em um tripé onde aparece as poesias, o CD produzido por Rodolfo Stroeter e, completando tudo, o projeto gráfico de Paola Faoro. ‘‘Ela acompanhou o projeto e concebeu um tratamento de imagem que é a mais perfeita tradução de tudo. Não consigo mais conceber meu texto sem o tratamento gráfico dado por ela’’, elogia Etel.
Neste domingo, no lançamento do livro-CD de Etel Frota, deverão estar presentes o poeta Thiago de Mello, o produtor e parceiro Rodolfo Stroeter, a designer Paola Faoro e outros parceiros e colaboradores.
Serviço
Lançamento do livro e CD ‘‘Artigo Oitavo’’, de Etel Frota. Hoje, às 16 horas, no Centro Paranaense Feminino de Cultura (Rua Visconde do Rio Branco, 1717, telefone (41) 232-8123), em Curitiba. Pedidos do livro podem ser feitos diretamente à autora, pelo e-mail [email protected]. Preço: R$ 40,00 (no lançamento, estará sendo vendido a R$ 35,00).




Maioridade
Não te queria, minha
poesia
exposta a olhos e
dents
salivas e tesões
Sâo minhas as tripas
que espalhas no
morgue
pelos balcões
São minhas as dores
que te afligem
donzelinha meretriz
angores de mão de
noiva
temores de mãe
de virgem
pudores de mãe de
miss
Enfim,
bates-me a porta
da cara no peito
Ganhas a rua
Despudorada
louca
e bela
Furtiva e nua
te espio
pela janela
Pressinto a
madrugada
de te esperar
No escuro
Calada

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