Passar os olhos pela superfície do jornal, fazendo com que todo o mecanismo de atenção se volte para o próprio corpo do leitor. Tocar seu pensamento por chaves que abram portas para a passagem ao salão da imaginação. Para que, com a ferramenta das idéias, outras proposições sejam colocadas em circulação. Palavras inventadas para multiplicarem as possibilidades da leitura, para se conectarem ao que, aqui, procura expandir e contaminar, atravessando suavemente e delicadamente toda a matéria sensível que pode ser tocada pela percepção de algo à nossa volta. No caso, à nossa frente, o toque das palavras.
Enquanto seus dedos umedecem a folha do papel jornal com seu suor, enquanto seu coração troca de compasso na medida em que sua concentração aumenta, e suas articulações se põem em estado ideal para a compreensão, interpretação da leitura, e seus rins, fígado, intestinos, vísceras são atingidos pela postura da coluna vertebral, que se reposiciona, procurando conforto físico. E o som externo, por vezes, é percebido conforme sua concentração. E sua relação com a temperatura, iluminação do ambiente e seu próprio humor estão sujeitos à frequência de sua respiração e vive-versa e à possibilidade do estabelecimento de uma relação entre o que vai sendo escrito e o que vai se lendo. Tudo, mas tudo mesmo está sujeito à mesma dimensão original, única e insubstituível do momento presente que somos incapazes de reter.
Sim, isto aqui é um jogo. Um jogo onde a palavra é nosso único instrumento a criar o caminho. Um percurso que vai sendo criado à medida em que por ele se atravessa um passo que se constrói , mas, instante seguinte, nada mais é certeza de território seguro, apenas o desejo de seguir em frente deixando-nos a sós novamente. Um jogo que faz do exercício da linguagem um elemento funcional. Neste lance ao acaso, a preocupação é material, física. Queremos sua espessura, densidade, momento e força arrebatadora e visível, como o do peso da tinta impressa sobre o papel.
Importa-nos os tipos e fontes de letra, seu tamanho, entrelinhamento,largura da coluna e retícula de fundo, que são tão importantes quanto a cadência do texto e a sua (a minha, a nossa) respiração. O papel do jornal como suporte de sonhos e idéias.Não, não é um jogo de mentira. O pensamento pode ser contornado pela realidade e, ainda assim, estar imerso em um turbilhão de impressões, sensações e intuições tanto quanto o corpo está, neste momento sendo atravessado por ondas, partículas, sons, luzes e átomos que preenchem o espaço e dão sentido à idéia do tempo - memória e porvir. Um jogo de
palavras que se propõe à condução de uma leitura inédita a cada vez que é lido, como em um caminho em que começamos a notar certas coisas que nunca havíamos prestado atenção antes. Criação em estado puro: inspirar...expirar.
As caminhadas nos ajudam a pensar melhor, influenciam nosso estado de saúde, abrem nossos pulmões para a respiração. Inspirar e expirar, uma vez, e depois outra. Isto modificará seu (meu, nosso) dia, contaminará as outras páginas do jornal, tornará viva cada palavra dita. Que elas deixem de servirem só a um discurso analítico para se tornarem síntese. Que evoquem sensações! Assim, seu peso comunicativo estará a serviço do conhecimento e não do argumento que justifica o uso do poder. Próxima ao corpo a palavra agora dança e canta e ri e convoca cada um para, a seu modo, se darem ao exercício da criação. Podemos começar? Então vamos lá: postura correta da coluna vertebral, atenção aos batimentos do coração, concentrar-se nos próprios movimentos e na respiração que faz de nós um meio entre o mundo externo e as nossas mais internas sensações. Solte-se, relaxe. Nada de prender os pensamentos. Deixe que venham, deixe que se vão. Inspirar...expirar. Há sempre algo novo no meio do mesmo percurso, volte se for preciso, mas continue no caminho. Aceitar as coisas como elas são também pode ser transformador.

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