ReproduçãoHeiner Muller: vida conturbada, repleta de idéias e ações polêmicasUm caminhão descendo uma ladeira pisando no acelerador, atropelando cachorros, quebrando galhos de árvores, assustando pedestres. Um pesado caminhão lutando contra o vento, contra os buracos do asfalto, contra as pedras atiradas no pára-brisa. Um caminhão com os pensamentos embebidos em gasolina acendendo um cigarro atrás do outro, exalando política de seu motor.
A sensação de um caminhão descendo uma ladeira a toda velocidade está na autobiografia do dramaturgo alemão Heiner Muller. ‘‘Guerra Sem Batalha - Uma Vida entre Duas Ditaduras’’, lançado pela editora Estação Liberdade, foi concluída três anos antes de sua morte, ocorrida em dezembro de 1995.
A obra não possui uma estrutura convencional de autobiografia. Foi elaborada a partir de dezenas de entrevista e depoimentos do dramaturgo a três jornalistas, Katja Lange-Mullar, Helge Malchow e Renate Ziemer. As informações complementares foram realizadas pelo próprio Muller com a colaboração de Stephan Suschke. O resultado é uma longa entrevista, pontuada por considerações de caráter cronológico, onde o escritor desfia suas memórias a partir das referências de suas peça, a época em que foram escritas, o contexto que eram encenados e suas consequências.
Nascido em 1929, Heiner Muller, considerado um dos mais importantes dramaturgos deste século - apontado como sucessor da dramaturgia alemã de Bertolt Brecht - teve uma vida conturbada, repleta de idéias e ações polêmicas. Autor de peças encenadas por todo o mundo - como ‘‘Quarteto’’, ‘‘Hamletmaschine’’, ‘‘A Repatriada’’, ‘‘Medeamaterial’’ e ‘‘Édipo Tirano’’ - atravessou as transformações culturais e políticas da Alemanha deste século com uma personalidade iconoclasta. Sua ironia, seu sarcasmo, podem ser sintetizados na seguinte frase: ‘‘É um privilégio para um autor ver naufragar três Estados numa só vida. A República de Weimar, o Estado fascista e a República Democrática Alemã. Provavelmente não assistirei ao naufrágio da República Federativa Alemã.
Roubos Disparando farpas para todos os lados, teve peças censuradas, foi expulso da Associação dos Escritores, jogado pela janela da Academia de Artes da RDA, odiado e amado. Com o fim da Segunda Guerra, foi encarregado de expurgar a literatura nazista das bibliotecas. Palavras suas: ‘‘Essa atividade foi a base da minha própria biblioteca. Roubei como um corvo. Foi um período maravilhoso. Eu roubava livros, lia e, de qualquer modo, aprendi muito’’.
Curiosamente, numas das páginas de ‘‘Guerra Sem Batalha’’, menciona o encontro com um texto de baiano Jorge Amado na aulas de literatura do ginásio: ‘‘Lembro-me de um texto de Jorge Amado, um trecho de ‘Jubiabᒠque o professor havia lido para nós. O herói era um negro, ele se masturba porque está só, ‘sua mão era a mulher’. Ele leu esse texto para nós, extraordinário para um professor alemão’’.
No plano das idéias, Heiner Muller é bombástico. No plano das artes cênicas propriamente dita, prefere detalhes de um olhar contagiado: ‘‘Quando alguém escreve peças durante décadas, nota-se de repente que está se repetindo. O trabalho torna-se mecânico. Algumas expressões surgem sempre, os mesmos temas. Uma remédio contra isso é encenar os próprios textos. Assim os congelamentos se dissolvem. Encenar é a única forma de esquecer meus textos, um ato de libertação, uma terapia. Antes e depois dos ensaios sei os textos de cor, nos ensaios me soam estranhos e pertencem aos atores’’.
• Guerra sem Batalha - Uma Vida Entre Duas Ditaduras - de Heiner Muller, Editora Estação Liberdade, tradução de Karola Zimber revista por Angel Bojadsen, 336 páginas, R$ 30,00/Livraria Rosa do Povo.

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