O ARQUEÓLOGO DO TEATRO BRASILEIRO
Francelino França
De Londrina
Décio de Almeida Prado, considerado o maior estudioso do teatro brasileiro, completa 82 anos este mês. Em 60 anos de atividades, foi ator amador, diretor, professor, crítico e ensaísta. Possui uma extensa bibliografia sobre o teatro brasileiro, fazendo um minucioso resgate arqueológico das nossas artes cênicas. Prado atravessou o século convivendo com mestres como Claude Lévi-Strauss, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Antonio Candido, entre outros, e carrega essas influências.
Nos palcos, assistiu a antológicas apresentações como a ardente performance de Marlon Brando em Um Bonde Chamado Desejo, A Moratória, de Jorge Andrade, com Fernanda Montenegro iniciando a carreira e a estréia de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, pedra angular do teatro moderno brasileiro.
Prado considera a fase de ouro do teatro nacional o período que compreende o final da década de 40 até o final da década de 60, quando influências estrangeiras foram absorvidas e houve um visível amadurecimento dos atores e diretores, que aprenderam melhor seu ofício. Para ele, foi um progresso fazer dramas e encenar tragédias. Hoje, considera que o teatro virou uma extensão da novela.
Como jornalista, dirigiu o extinto Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo. Se ressente do espaço diminuto concedido à crítica de espetáculos, dando preferência ao relato informativo, na estréia da peça. Como elemento de consciência de uma obra, a crítica está perdendo espaço. Aposentado, raramente deixa sua casa para assistir a peças, prática que realizou com imenso prazer durante décadas.
Seu último livro, lançado a pouco tempo pela Edusp, História Concisa do Teatro Brasileiro, abrange a fase de 1570 a 1908. O autor desvendou períodos ainda obscuros, garimpados de verdadeiros documentos de época. O nascimento do teatro tupiniquim se deu à sombra da religião católica, com José de Anchieta. Nos primórdios do período colonial, as artes cênicas convergiam para temas religiosos.
No século XVIII, o teatro começou a despontar em Salvador. Há registros que em 1717, na então capital do Vice-Reinado, já se representava comédia espanhola, no qual dançavam misturados padres, freiras, monges, cavalheiros e escravos, sem contar o Vice-Rei e mulheres de vida fácil. O teatro no período colonial foi instrumento de nivelação social, agregando num mesmo ambiente negros alforriados, mulatos, estudantes, professores de pequenas letras, funcionários públicos, caixeiros de loja e militares. O teatro brasileiro oscilou sem jamais se equilibrar, entre três sustentáculos: o ouro, o governo e a Igreja Católica, resume Décio de Almeida Prado.
Como reflexo da chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, atores de Lisboa se fixaram no Rio. Os papéis obedeciam uma determinada hierarquia da época: primeira dama, segundas damas, primeiro galã, galã central e tirano, velho sério, primeiro gracioso, pequeno mestre e segundo gracioso.
Décio de Almeida Prado é um grande estudioso daquele que considera o maior ator brasileiro de todos os tempos, João Caetano. Foi esse ator quem levou aos palcos brasileiros nossa primeira autêntica tragédia O Poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães. Caetano também foi o responsável pela apresentação da primeira comédia brasileira O Juiz de Paz na Roça, de Martins Pena.
Dois autores merecem destaque nessa pequena antologia teatral, Gonçalves Dias, autor de Leonor de Mendonça, o mais belo drama romântico brasileiro; e Martins Pena, autor de O Noviço, texto que retratou o brasileiro do século passado de forma cômica.
O teatro rebolado, como não poderia deixar de ser, teve como inventora uma brasileira, a atriz Aurélia Delorme, considerada medíocre. Há o seguinte registro feito na época sobre seus atributos: Dava tais voltas, fazia uns tais requebros luxuriantes, que a platéia levantava-se entusiasmada e cobria-a de flores. Artur Azevedo, nome que dominou o teatro brasileiro de 1873 a 1908, ano de sua morte, também não foi esquecido. Dois de seus textos mais celebrados, O Mambembe e A Capital Federal, são considerados clássicos na dramaturgia nacional. História Concisa do Teatro Brasileiro é uma obra que equilibra detalhes preciosos e visão de conjunto de quase quatro séculos de teatro no Brasil.Décio de Almeida Prado esmiuça em livro quatro séculos de teatro, uma lição completa sobre a dramaturgia nacional
Agência EstadoDécio de Almeida Prado: O teatro musicado significou um aumento ponderável de público, com benefícios econômicos para intérpretes e autores, e o decréscimo de aspirações literárias





