O aroma da realidade
Dentro da literatura brasileira, o conto é um gênero que sempre aparece imerso em vitalidade. De tempos em tempos aparecem escritores que conseguem dar ao gênero uma beleza substanciosa. Entre os novos contistas brasileiros, o paulista Marçal Aquino merece destaque. Mantendo-se fiel às características do conto, está construindo uma obra repleta de boas surpresas.
Depois de dois volumes de contos, ''As Fomes de Setembro'' (1991) e ''Miss Danúbio'' (1994), Marçal Aquino ganhou projeção nacional com a publicação de ''O Amor e Outros Objetos Pontiagudos'' (Geração Editorial), em 1999. O livro recebeu o Prêmio Jabuti daquele ano com total merecimento. Agora a Editora Ciência do Acidente está lançando seu novo trabalho, ''Faroestes'', que reforça a vitalidade e a maturidade da narrativa do escritor.
''Faroestes'' traz 11 contos em que Marçal trabalha com temas completamente atrelados à realidade. Numa linguagem ágil e direta, desenha personagens e situações que podem ser encontrados pelas esquinas. Pessoas e situações que ocultam alguma coisa no interior dos bolsos. Coisas que podem alterar e, ao mesmo tempo, revelar os materiais inconfessáveis que formam a realidade.
A violência urbana é um dos temas recorrentes nos contos presentes em ''Faroestes''. Policiais e marginais inundados pela frieza do ofício dividem espaço com habitantes da periferia que aceitam o amor como aceitam uma vaga num hospício. O homem comum entrando em situações que não estavam gravadas no manual de sobrevivência, mas que as aceita como um revólver aceita as balas em seu tambor.
Em seus textos, Marçal esparrama fragmentos de histórias pelos parágrafos para nas últimas linhas apresentar uma gaveta de surpresas. Quando o leitor abre a gaveta das últimas do final, o encadeamento de idéias e sensações é desviado da direção que parecia seguir. Uma belo exemplo disso está no conto ''Ferrugem'' cuja narrativa sugere que os personagens vivem determinada situação, mas, no final, a sugestão se revela um engano. Assim, o leitor é levado a repensar a idéia que fazia da história, mostrando que em literatura o que não é dito pode ter mais significado do que é dito em alto e bom som.
A literatura de Marçal Aquilo, em algumas situações, lembra levemente os contos de Domingos Pellegrini. Principalmente aqueles trabalhos produzidos pelo escritor londrinense no final da década de 70. Não pela temática, mas pela condução narrativa. Pelas trilhas utilizadas para construir uma história bem contada em poucas páginas e revelar como a ficção pode estar próxima da realidade, de maneira sedutora.
O que impressiona em ''Faroeste'' é que todos seus contos são praticamente impecáveis. Assim como em ''O Amor e Outros Objetos Ponteagudos'', podem ser lidos por uma ampla gama de leitores sem que o conteúdo se disperse pelos cantos das páginas. As histórias relevam, de maneira discreta, os desejos ocultos e a latente ironia do comportamento humano em sociedade.
Uma das características dos contos de Marçal Aquino é o fato de não evidenciar o caminho dos personagens, mas iluminar o choque dos caminhos. O momento exato em que os caminhos das pessoas se trombam, provocando uma alteração em todos as direções pré-imaginadas.
No conto ''Homens Mortos'' por exemplo, o narrador deixa transparecer que sua direção pode ser modificada e, ao mesmo tempo, não pode alterada. Mesmo quando o fator ''mulher'' entra na caminho: ''Eu estava tentando recomeçar e aquele era um bom lugar para um recomeço. Mas eu tinha consciência de que, para recomeçar, um homem precisa perdoar-se. Mais que isso: precisa fabricar uma espécie de amnésia de estufa e esquecer tudo a seu próprio respeito. Eu não sabia perdoar, nem a mim, nem aos outros. E havia coisas que eu não queria esquecer. Em especial, as que me deixavam com ódio e me mantinham vivo.'' (M. L.)
''Faroestes'', de Marçal Aquino, Editora Ciência do Acidente, 112 páginas, R$ 19,00.





