O 'Arnesto' não convidou ninguém
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Julio Maria<br> Agência Estado 
O Arnesto nos convidou para um papo. Ele mora na Mooca, na zona leste da capital paulista. Nós fomos e quase não encontramos ninguém. Aos 95 anos, Arnesto precisa extrair dois dentes que lhe têm deixado com uma baita de uma raiva. Vestido para se encontrar com o médico cardiologista, que precisa dar OK antes de o dentista aplicar a anestesia, Arnesto teve tempo de receber a reportagem em sua casa. ''Pegue um carro e vem pra cá, depois vai ficar difícil'', disse, por telefone.
A vida de Arnesto, o homem que Adoniran Barbosa fez virar música com ''Samba do Arnesto'', em 1955, está agitada, a ponto de recados começarem a ser deixados embaixo da porta. As cineastas Aline Sasahara e Vange Milliet, esta também cantora, querem tê-lo em um documentário sobre Adoniran Barbosa, a ser lançado em 2010, quando o sambista faria 100 anos se não tivesse morrido, em 1987. Os compositores Nando Távora e Sonekka lhe fizeram uma música como resposta ao ''Samba do Arnesto'', dizendo desta vez que ele mora é na Mooca.
A música está prestes a ser lançada pela gravadora Quickstar Productions, de Baltimore, Estados Unidos, em um CD com artistas de várias partes do mundo chamado ''Going Back Home''. E o sambista Tobias da Vai-Vai o quer todo eufórico sobre um carro alegórico no carnaval de 2011, quando a escola do Bixiga irá homenagear o homem de ''Trem das Onze''. ''Quem mandou o Adoniran me aprontar essa'', diz.
Arnesto vive bem com a fama que Adoniran lhe deu e considera o amigo um gênio, mas esclarece: a história que aparece na música nunca aconteceu. Na letra de Adoniran, Arnesto o convida para um samba no Brás. Quando chega com amigos, nem sombra de Arnesto. ''Isso não se faz, Arnesto/ nóis não se importa/ mas você devia ter ponhado/ um recado na porta'', imortalizou a canção.
Arnesto não convidou ninguém para samba nenhum e, se tivesse convidado, jamais daria o cano. Filho de italianos, Arnesto nem é Arnesto, é Ernesto. Quando tocava nas cantinas com seus regionais italianos, não deixava que seus músicos bebessem. Adoniran, na época, respondeu ao amigo sobre o episódio que criou para fazer a música: ''Ah, Arnesto, se não tivesse mancada não tinha samba''.
Com aquela voz que mais saía do nariz do que da boca, Adoniran cismou com o rapaz bom de violão logo no primeiro encontro, em 1938, nos corredores da Rádio Bandeirantes. ''Arnesto? Esse nome dá samba. E eu vou fazer um samba pra você, você aduvida?'' ''Mas eu não sou Arnesto, sou Ernesto.'' ''É Arnesto, sim, e vou te fazer um samba, dá aqui um abraço.''
Dezessete anos se passaram e nada de samba. Ernesto, cansado de pagar aluguel no Brás, comprou casa na Mooca e se tornou um violonista de música napolitana respeitado nas cantinas de São Paulo. Em uma tarde de 1955, foi a mulher, Alice, quem ouviu primeiro no rádio: ''O Arnesto nos convidou prum samba, ele mora no Brás...'' Ernesto deu um pulo. ''Alice, essa peteca é minha, é minha!'' A mulher o abraçou e ele chorou. ''Adoniran é incrível, cumpriu a promessa 17 anos depois'', lembra.
Ernesto virou Arnesto para toda vida. É uma música em forma de homem que se exercita todas as manhãs, estuda Matemática, violão e Língua Portuguesa sete horas por dia. Fez oito filhos, dois deles vivos, e vê crescerem dez netos e oito bisnetos. Não fuma, não bebe, dorme bem, come pouco, gosta de pratos italianos e tem um projeto de vida instigante: viver até os 120 anos. ''Ele é muito disciplinado e tenho certeza que vai conseguir isso'', fala a filha Valéria. A mente é treinada com rigor. ''Estudo porque é minha ginástica mental.'' Seu mais novo aprendizado em Matemática? ''Ah, hoje eu estudei a fórmula de Báscara.'' Ao violão, uma joia espanhola de 1930, treina os dedos tirando peças no livro de Matheu Carcassi.
E, no rádio, estaria hoje ouvindo algo que o deixa feliz? ''Ah, a música perdeu muito de sua poesia. Antes a gente ouvia Orlando Silva. Hoje, ligamos o rádio e sempre está tocando 'você não vale nada mas eu gosto de você'''. O homem está mesmo forte. E lúcido.


