O arauto da contracultura
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de novembro de 1997
Nelson Sato Londrina 
ReproduçãoUm poeta ronda o atual revival tropicalista. Torquato Neto ameaça, pelas bordas, voltar à ordem do dia. Motivos, afinal, não faltam para sua obra ressurgir estimulada pela revisão em curso do movimento que sacolejou a música popular brasileira no final dos anos 60.
Aos recém-lançados livros de Caetano Veloso e Carlos Calado, ambos tematizando a tropicália, previa-se a publicação este mês de uma nova edição de sua obra pela editora José Olympio. O projeto, porém, foi adiado para o começo do ano que vem.
É uma pena. O legado de Torquato, exposto hoje ao público, certamente enriqueceria o painel crítico daquele que foi um dos períodos mais turbulentos da história cultural do País. Sua trajetória, aliás, é emblemática da época. Toda a ânsia de experimentação tem nele um incansável acolhedor, o que ganhou uma observação de Caetano em seu livro Verdade Tropical.
Jornalismo pop Se algo parecia preocupante era justamente sua tendência a aferrar-se aos novos princípios como dogmas e desprezar antigos modelos com ferocidade - anotou o ilustre baiano, referindo-se à conversão de Torquato ao ideário transformador do tropicalismo.
Foi ao lado de Caetano que ele imprimiu os principais textos-manifestos do movimento em composições como Geléia Geral, Marginália II e Louvação. Há inclusive quem afirme que tais letras influenciaram muito mais os poetas jovens contemporâneos do que qualquer outro poeta brasileiro moderno, o que não soa exagerado em vista da profusão de autores que saltaram das páginas dos livros para a melodia da canção nos últimos anos.
Como arauto da contracultura, Torquato militou na imprensa entre 1971 e 1972 assinando a coluna Geléia Geral no diário carioca Última Hora. Ali criou um estilo personalizado de escrita disparando textos agéis, telegráficos e dotados de contundência crítica. Provocativo, defendeu ardorosamente o cinema experimental contra o Cinema Novo.
Culto Foi precursor ainda de um certo jornalismo pop, que viceja hoje como mero filão mercadológico para atrair leitores jovens. Incursionando pelo cinema, rodou o super-8 O Terror da Vermelha e atuou em Nosferatu no Brasil de Ivan Cardoso. Mas ao se matar na madrugada do dia 10 de novembro de 1972, trancando-se no banheiro com a torneira de gás aberta, Torquato teve a obra ofuscada pela glamourização de seu suicídio.
Por isso, a todos que vieram depois, as duas edições anteriores de sua coletânea de textos - batizada de Os Últimos Dias de Paupéria e publicada respectivamente em 1973 e 1982 - transformaram-se em preciosos documentos do pensamento do poeta e fonte permanente de inspiração. Relendo a obra, é espantoso constatar a incandescência de seus escritos se transportados ao pasteurizado ambiente cultural brasileiro nesse final de anos 90.
Não à toa, Os Últimos Dias de Paupéria virou objeto de culto de toda uma geração. Felizmente, a obra retorna às livrarias no ano que vem.


