O APRENDIZADO DA SOLIDÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de janeiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
No dia 9 de fevereiro a Academia de Hollywood anuncia os nominados para o Oscar-2000, com entrega prevista para o último domingo de março. Mais uma vez Tom Hanks vai estar na lista de candidatos a melhor ator, concorrendo por Náufrago(veja a programação de cinema na página 4). Se ganhar sua terceira estatueta - Philadelphia e Forrest Gump, 93 e 95 - ele terá parte ainda maior de responsabilidade por ela. Pois é dele a idéia original, desenvolvida como argumento e afinal roteiro por William Broyles Jr., que já havia escrito Apollo 13 para Hanks, com direção de Ron Howard.
Chuck Noland (Hanks) é um engenheiro obcecado pelo tempo, as horas, o distanciamento horário, a idéia de duração. Um cronômetro em vez de coração, é o que carrega no peito este excelente empregado da gigante Federal Express, perito como poucos em expedição de encomendas para todas as partes do mundo. Seu trabalho é frenético, massacrante. Sua hora de referência é a de Memphis, Tennesse, onde vive a namorada Kelly (Helen Hunt). É de lá que Noland decola, na véspera do Natal de 95, rumo a algum destino ao sul do Pacífico. Mas o avião não resiste a uma severa tempestade e cai no mar, em acidente registrado por Zemeckis de maneira ultra-realista. Noland sobrevive e é levado pelas águas para uma pequena ilha da Polinésia. E a partir dali, ele e sua inapelável solidão vão tentar sobreviver num elemento inteiramente hostil. Para isso é necessário buscar as raízes, o básico ancestral, logo ele, produto arquetípico do século 20 marcado pelo consumismo. Por quatro anos restará só, em companhia de uma bola de voleibol a quem o náufrago deu uma alma e um nome, Wilson. Até a decisão: construir uma jangada, tentar superar as ondas que o separam do mar alto e sair ao largo em busca da civilização.
Uma vez que se aprende a sobreviver fisicamente, como é possível conseguir sobreviver do ponto de vista emotivo, psicológico e espiritual? Este é o ponto central que Cast Away procura responder. A despeito do título e do aparente exotismo (em boa parte rodado em Monu-riki, uma das muitas ilhas Figi), o filme narra um processo intimista, um manifesto da humanidade evoluída e saciada, embora inquieta e carente. Uma espécie de hora da verdade, de confrontação com ela mesma, agora privada de tudo, precisando começar de novo, bem do início, das necessidades primitivas: caçar, comer, encontrar abrigo, redescobrir o fogo, sobreviver dia após dia.
Náufrago é quase o grande filme de Zemeckis. Bem melhor sucedido que Forrest Gump, menos didático que Contato, mais sutil do que tudo que o diretor fez até agora em uma carreira que já dura 20 anos, iniciada em 78 com o cult I Wanna Hold Your Hand (Febre de Juventude). O quase corre por conta de um problema: os 20 minutos finais, que balançam o equilíbrio e a harmonia do todo. Mas vamos por partes, começando pela melhor. Um tour de force cinematográfico, um competente exercício de direção.
Durante hora e meia, não se filma nada além de um ator (Hanks, evidentemente em relação quase carnal com a câmera), a ilha e a água onipresente. Um mínimo de palavras, nenhuma música e muito menos ação. E tudo sem aborrecer a platéia. Sem render-se ao paradisíaco, e sem nos poupar, Zemeckis constrói todo o aprendizado de um homem em relação a seu novo habitat. Conquistar o fogo é um ato digno de comemoração, porque significa um ato civilizatório. Da mesma forma, enterrar um cadáver não tem afinal nenhuma importância existencial. Nada se perde, nada se cria. Este sobrevivente do Pacífico vai recriar pinturas rupestres, na tentativa de memorizar seus conhecimentos humanos. Brilhante, toda esta parte do filme, aceitando a luz natural, a sonoridade das ondas como melodia. É nesses momentos que se observa o reencontro com toda a essência do cinema: uma câmera, um ator e um tema. A imagem a serviço de uma vontade. Zemeckis, narrador experiente, se concentra no rosto de Hanks, evita a retórica, dosa com habilidade os momentos dramáticos, introduz o humor na medida correta.
Não se sabe, porque não se informa, nada daquilo que se passa em outros lugares: golpe de gênio do roteiro, que isola o homem e não lhe deixa nenhuma escapatória deste exílio forçado. Nenhuma incursão do tipo enquanto isto... Não por acaso o tempo é componente essencial da narrativa. Para os 4 anos enfrentados por Noland, não cabe levantar suspeitas sobre o procedimento adotado por Hanks para compor o personagem. De início, um ganho de quilos, até quase os 100. Filmagens interrompidas por oito meses, e uma perda de 20 quilos, em processo muito parecido ao de Robert De Niro em Touro Indomável, de Scorsese. De volta ao sets, mudanças físicas sim, mas o tempo redescoberto para uma retomada amadurecida.
Pena que tudo isso quase se perca no terço final, pesado, pomposo, clássico, insípido. Mal alinhavado e mal roteirizado, padece de excesso de romantismo e quase nenhuma dramaticidade. Falta boa dose de emoção e sobra hesitação. Ainda assim, no entanto, sobrevivem suficientes razões para aderir a este filme insinuante e absorvente.


