Elis Regina (1945-1982) não gostava, mas o rótulo de ‘‘cantora de TV’’ a perseguiu durante os melhores anos de sua carreira. O programa ‘‘O Fino da Bossa’’, que comandou ao lado de Jair Rodrigues na TV Record entre 1965 e 1967, foi o responsável pela tarja. Através dele, a notável intérprete gaúcha reinou nas quartas-feiras à noite encarnando o papel de anfitriã de artistas consagrados e iniciantes.
O único registro sonoro do programa é a série de três CDs ‘‘Elis Regina no Fino da Bossa – Ao Vivo’’, que está retornando este mês ao mercado, oito anos após sua primeira edição pela gravadora Velas (posteriormente rebatizada Caravelas). Os três volumes reúnem as gravações antológicas realizadas nos dois teatros da TV Record, quando Elis despontava como a grande voz feminina da MPB.
A estréia diante das câmeras está registrada na canção ‘‘Formosa’’, datada de 17 de maio de 1965, na qual a cantora divide o microfone com Ciro Monteiro, Baden Powell e Zimbo Trio. ‘‘Era uma segunda-feira e o vídeo seria exibido na quarta. Tive o pressentimento que algo histórico estava começando a acontecer na nossa música e por isso passei a arquivar em pedaços emendados de fitas de rolo já bem baleados (pois era o que eu dispunha na época), os melhores números musicais, os mais felizes encontros, enfim os momentos que mais me emocionaram’’ – conta o crítico Zuza Homem de Mello no encarte da coletânea.
Zuza era o técnico de som do programa. Guardou os registros originais das gravações até decidir, já nos anos 90, mixar e remasterizar as fitas para a tecnologia digital. A reconstituição do áudio é passável, apesar de abafada. Elis revela-se à vontade em seu pioneirismo, dando o tiro de largada para a era dos musicais na televisão brasileira. Canta, ri e se diverte entre as palmas, tagarelices e assobios do público.
Repleto de duetos e encontros, ‘‘O Fino da Bossa’’ tinha como pano de fundo um ambiente político efervescente, que direcionava os artistas para o engajamento social. Elis seria picada pela canção de protesto rivalizando no gênero com Nara Leão, então porta-voz de compositores do morro. De matiz nacionalista, suas críticas atacavam a dominação estrangeira não poupando sequer a Jovem Guarda, a qual considerava um movimento alienante .
Chegou a organizar uma passeata estridente contra a guitarra elétrica. Nessa época, ‘‘O Fino da Bossa’’ começava a perder audiência para um programa de jovem guarda comandado por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Os três discos agora reeditados capturam a fase anterior, de apogeu da MPB acústica. O primeiro CD destaca um pout-pourri de Tom Jobim executado por Elis ao lado de Jair Rodrigues e Zimbo Trio.
Inclui também uma roda de samba com a presença de Elza Soares, Lucio Alves e Agostinho dos Santos (grafado erroneamente na contracapa como ‘‘dos Anjos’’). No segundo CD, Elis canta ‘‘Mulata Assanhada’’ com Ataulfo Alves e faz o lançamento de Gilberto Gil. Também participam Wilson Simonal, Rosinha de Valença e Jorge Ben. Já o terceiro volume traz aparições de Adoniran Barbosa, Os Cariocas e Claudette Soares. Aqui, Elis presta uma homenagem a Carlos Lyra.
Ao todo, os três discos reúnem 64 faixas de raro valor documental. A edição estará à venda com exclusividade nas lojas da rede Carrefour com preço promocional de R$ 9,90 cada volume.

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