O APOCALIPSE DE UM DIRETOR
Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha
Um dos mais cultuados filmes de todos os tempos, o épico de guerra Apocalipse Now, está comemorando 20 anos. Para celebrar a data, o Museu da Imagem e do Som (MIS) promove hoje a exibição do documentário O Apocalipse de um Diretor e amanhã será exibido o filme.
Apocalipse Now (Apocalypse Now, 1979), de Francis Ford Coppola, estreou em 1979 após três anos de filmagens nas Filipinas. Apesar de tido como a obra-prima do diretor da trilogia O Poderoso Chefão, Apocalipse Now foi um retumbante fracasso de bilheteria, arrecadando somente US$ 38 milhões. Isto porque seu custo fui muito superior ao estimado, devido aos contratempos.
E que contratempos! Primeiro o set de filmagem foi arrasado por um furacão, depois Marlon Brando resolveu desistir do papel de coronel Kurtz e o ator Martin Sheen sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens. Claro que, no final, tudo isto serviu para criar um mito em torno do filme.
Marlon Brando, depois de alguma resistência, interpretou magistralmente o coronel Kurtz. Sheen recuperou-se do ataque cardíaco e o set foi reconstruído graças a uma injeção de recursos alavancados com a hipoteca de parte do patrimônio acumulado por Coppola com o sucesso dos três filmes da série O Poderoso Chefão.
Ao chegar aos 20 anos de idade, Apocalipse Now mostra ser mais do que um filme sobre os horrores da Guerra do Vietnã. Baseado no magistral romance do escritor inglês Joseph Conrad, Apocalipse Now tomou contornos de um anacrônico libelo contra a dominação pela força, seja de que natureza ela for.
Alguns dos episódios que pontuaram as filmagens de Apocalipse Now estão registrados num documentário dirigido por Eleanor Coppola, mulher do diretor, e Fax Bahr. Lançado em 1991, O Apocalipse de um Cineasta é muito mais do que um simples making of. Ele traça com clareza o espírito de torpor que tomou conta do elenco durante as gravações de um filme que lida muito naturalmente com a insanidade produzida pelos estampidos da guerra.
A primeira cena, por exemplo, mostra Willard (Martin Sheen) completamente bêbado, sendo convocado para a missão de localizar e matar o coronel Kurtz. O detalhe desta cena é que não se trata de uma demonstração de virtuosismo do ator. Sheen estava mesmo completamente bêbado - e por ordem do próprio Coppola. Problemas com o elenco não faltaram. Dennis Hooper, que interpreta um fotojornalista, estava chapado demais para realizar suas cenas. E Marlon Brando, num ataque de estrelismo, ordenou que só fosse filmado em sombras.
Apocalipse Now é uma profunda incursão na insanidade que se instala durante uma guerra. Coronel Kurtz, ao ver as atrocidades cometidas pelos soldados americanos, que não hesitavam em matar crianças e velhos, decide desertar e formar uma espécie de exército paralelo instalado no Camboja, a fim de lutar contra seu próprio país. É óbvio que um homens assim deveria ser eliminado. Willard é designado para esta missão suicida. Durante o trajeto, porém, Willard começa a desconfiar que está lutando do lado errado, e que Kurtz talvez não seja tão louco assim. Suas dúvidas se intensificam com a belíssima cena em que uma pelotão da Cavalaria Aérea toma de assalto um vilarejo ao som da ópera A Cavalgada das Valquírias, de Wagner. Durante este mesmo ataque, soldados surfistas desdenham das bombas e tiros fazendo manobras nas ondas do rio. Willard segue seu caminho até Kurtz. Quando o encontra, tem uma revelação.
O romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, no qual foi baseado Apocalipse Now, tem um enfoque totalmente diferente da obra cinematográfica. No livro de Conrad o cenário é a África Meridional no início do século, durante a colonização inglesa na região. Kurtz é um comerciante de marfim e não há nenhuma guerra ao redor. Conrad faz, isto sim, uma reflexão sobre a insanidade a que está exposto o homem que vive solitário na floresta inóspita. É também uma das maiores obras políticas já concebidas. O colonialismo toma proporções de catástrofe para os nativos e Kurtz, insano, considera-se Deus.
Apocalipse Now recebeu oito indicações ao Oscar: melhor filme, diretor, roteiro adaptado, direção de arte, edição, fotografia, som e ator coadjuvante. Destes, ganhou dois: melhor som e fotografia. Além disso, recebeu a Palma de Ouro em Cannes e três Globos de Ouro.
O making of O Apocalipse de um Cineasta será exibido hoje e o filme Apocalipse Now amanhã. As duas apresentações terão início às 19 horas, no Museu da Imagem e do Som (Rua Barão do Rio Branco, 395), com entrada gratuita. Maiores informações pelo fone 323-5382.Para comemorar o aniversário de duas décadas, o clássico Apocalipse Now e o making of do filme serão apresentados no MIS
ReproduçãoUma das cenas do filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, que será reapresentado amanhã em Curitiba





