O antiilusionismo na estética contemporânea
Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para Folha2
O Van Gogh (1853/1890) que vemos nesta página não é um Van Gogh. É a reprodução em off-set de uma fotografia de um auto-retrato feito aproximadamente em 1885. Seu valor histórico vale o preço do fetiche que a sua pintura, transformada em mercadoria, custa. Seu preço não é o da inegável qualidade artística que possui, mas da aura comercial que foi criada sobre Van Gogh, transformando-o em mito.
O que vemos na realidade são camadas e mais camadas de publicidade, marketing e histórias paralelas ao trabalho que o artista realizou, que nada tem a ver com seu valor de feitura, ironizando inclusive sua dor apaixonada e sincera pelo absoluto.
Falar de seus amarelos, de suas pinceladas justapostas, vigorosas, da ruptura da cor com a representação naturalista pela cor carregada de emoção, em sua ambição pela carne da matéria, é algo que está muito além do senso comum quando se trata de Van Gogh. As aparências aparentam.
Sherrie Levine, uma fotógrafa norte-americana contemporânea, que retrata obras famosas e as apresenta como originais seus, visa justamente desmascarar esse fetiche, propondo uma outra visão sobre obras de arte. A reprodução dessa foto da ilustração acima, por exemplo, é um retrato em preto-e-branco de uma série que ela criou sobre as pinturas de Van Gogh em 1994. As aparências enganam.
Aliás, o surrealismo já tratava dessa questão desde o começo do século, como é o caso de uma série de trabalhos realizados pelo francês René Magritte (1869/1967), com seus jogos de trocadilhos mostrando um desenho de um cachimbo e escrevendo embaixo que aquilo não era um cachimbo, invertendo o entendimento sobre o que o desenho sugeria ser e o que de fato era, desconstruindo a lógica representada. Ou da célebre história de uma senhora indignada com o pintor fauvista Henri Matisse (1869/1954), que ao perguntar por que ele tinha pintado uma mulher de verde, ouviu em resposta que aquilo não era uma mulher, mas uma pintura. As aparências desenganam.
Quem se sente perdido quando vai a uma exposição e não consegue ver figuras no quadro pintado, não imagina que esse tipo de discussão - to be or not to be - levou a pintura a se desvincular da escultura, criando seus próprios códigos de linguagem, como por exemplo, libertando a cor da forma e do volume. As aparências desaparecem.
Por isso a ilustração acima é outra coisa além de um Van Gogh, que só vendeu um quadro durante a vida e hoje é um dos mais reproduzidos no mundo. Um original desses vale milhões e milhões de dólares. Como artista pop norte-americana, Sherrie Levine sabe que a propaganda é a alma do negócio. Eis aí a essência das aparências.





