Acostumado com personagens complicados, mas não com tal grau de incorreção - escolha qualquer modalidade e Hancock se enquadrará sem problema, pode ser que para o público dos EUA um super-herói malcriado, bêbado e homeless seja um pouco demais. Mas as platéias do Terceiro Mundo até poderão se identificar com este tipo dotado de todos os vícios e defeitos que nunca ocorreram no super-herói de moldes clássicos. Não que isto faça de ''Hancock'' um entretenimento imperdível ou mesmo recomendável, mas dá bem a medida dos paradoxos deste filme.
O fato de ele ser assim desprezível não significa que tenha poderes idem. Pelo contrário: voa à velocidade do som, possui força suficiente para levantar um trem e é capaz de resistir a disparos de qualquer calibre. É alguém imprescindível para impedir catástrofes, desbaratar qualquer quadrilha em ação ou tirar a polícia de apuros cada vez mais complicados. Ele só não sabe administrar muito bem este arsenal de forças. É certo que salva muitas vidas, mas está sempre exagerando. Há sinais disto por toda a cidade; nunca sabe muito bem sua rota de vôo, e deixa sempre um rastro de destruição. Produz tantos danos que não recebe aplausos, mas vaias. O que o torna ainda mais grosseiro e mal humorado.
Até que um dia salva a vida de Ray (Jason Bateman), pacato relações públicas. Como reconhecimento, o homem propõe mudar a imagem de Hancock, transformando o incorreto em super-herói como Deus manda, de uniforme e tudo. O tratamento inclui um pedido público de perdão, tornar-se totalmente abstêmio e até o cumprimento de uma pena, para que sua ausência seja sentida, o crime recrudesça e finalmente sua volta seja aclamada. Ray acha que falta a Hancock um pouco de carinho.
Até aqui tudo vai relativamente bem nesta narrativa. A ação está corretamente administrada, o personagem negro traz boas variações em relação ao modelo clássico e sua relação com Ray abre novas perspectivas. Além da trama conter um enigma: amnésico, Hancock não sabe quem é e nem de onde provém sua bateria de poderes. Para piorar as coisas, o herói também tem conflitos afetivos - ele dirige olhares cobiçosos à mulher de seu amigo (Charlize Theron). Isto tudo, em resumo, levado ao espectador num tom leve e frequentemente engraçado.
Mas então, logo quando o plano de Ryan começa a funcionar e a adesão da platéia parece garantida, as coisas se complicam. Uma guinada no roteiro impõe nova direção à existência de Hancock. E ao andamento do filme. O drama pesado comparece, desconcertante, abrindo frente para um outro filme, solenemente artificial. E aí nem a presença magnética de Smith e o sólido suporte de Bateman e Charlize parecem dar jeito.

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