O que alguns entusiastas da música popular brasileira já insinuavam, recebeu reconhecimento agora de uma obra literária. O livro "1973- o ano que reinventou a MPB", recém-lançado pela editora carioca Sonora, reforça a ideia de que raros períodos da historia do País foram tão ricos em lançamentos fonográficos fundamentais como naqueles doze meses em que o Brasil experimentava a euforia na economia e a repressão feroz na política sob o governo do general Garrastazu Médici.
Organizado pelo jornalista Célio Albuquerque, o volume reúne resenhas de 50 álbuns de música brasileira lançados em 1973 em textos assinados por críticos, artistas e pesquisadores. Cada texto é acompanhado da ficha técnica completa do disco. Entre os títulos analisados estão "Araçá Azul" de Caetano Veloso; "Milagre dos Peixes" de Milton Nascimento; "A Música Livre de Hermeto Paschoal" de Hermeto Paschoal; "Matita Perê" de Tom Jobim; "João Gilberto" de João Gilberto; "Nervos de Aço" de Paulinho da Viola; "India" de Gal Costa; e "Todos os Olhos" de Tom Zé.
Olhando para trás, surpreende a quantidade de artistas talentosos que estrearam com grandes trabalhos naquela temporada: Secos & Molhados com "Secos & Molhados"; Raul Seixas com "Krig-Ha Bandolo!"; Luiz Melodia com "Peróla Negra"; Walter Franco com "Ou não" (o disco da mosca); "João Bosco" de João Bosco; Fagner com "Manera fru fru, Manera"; Gonzaguinha com "Gonzaguinha"; e Sérgio Sampaio com "Eu quero botar meu bloco na rua".
Essa geração – assinala Albuquerque – inaugura um novo ciclo, fechando a "era dos festivais" que canalizara a nata da produção musical através de concorridas competições patrocinadas pelas emissoras de televisão entre 1965 e 1972. "Foi em 1973 que a música brasileira, sob um recorte temporal, se solta do passado, sem desgrudar-se dele, passeia pelo presente e salta para o futuro", salienta.
Em outro trecho, ele lembra que "os tropicalistas já não causavam a estranheza original, seu talento já estava assimilado; a Bossa Nova já não era nova, mas continuava a produzir obras-primas; os sambistas de raiz já haviam sido descobertos (ou redescobertos, ou começavam a ser redescobertos); a Jovem Guarda já tinha tomado de assalto a juventude; o rock Brasil ainda não existia como instituição, mas produzia-se rock em várias vertentes, do rural ao progressivo; bem além do iê-iê-iê e Celly Campello. A multiplicidade musical do país estava fervilhante. Não era o ano de protesto, nem das canções melodiosas. Era tudo isso e mais um pouco".
A lista de resenhistas convidados para analisar os 50 álbuns inclui nomes como
Roberto Muggiati, Antonio Carlos Miguel, Pedro Só, Silvio Essinger, Rildo Hora, Moacyr Luz, Sérgio Natureza, Marcos Suzano, Luiz Antonio Mello e Ayrton Mugnani Jr. O artigo que fecha o volume, de autoria do pesquisador Marcelo Fróes, aborda discos que foram gravados em 1973 mas que por razões diversas não chegaram a ser lançados – caso de "A e o Z" dos Mutantes e o "Banquete dos Mendigos" de Jards Macalé.
O texto de abertura, de Washington Santos, contextualiza o período enfatizando sobretudo os efeitos da censura sobre a produção cultural do País. A seara musical foi uma das vítimas de vetos e cortes implacáveis, como revelam vários artigos dessa coletânea ao lembrarem a curta duração de alguns álbuns analisados. O número reduzido das faixas não era opção dos artistas, mas resultado de mutilações impostas pela ditadura militar.

Serviço:
Livro "1973 – O Ano que Reinventou a MPB"
Organizador - Célio Albuquerque
Editora - Sonora
Páginas - 434

"Pérola Negra" - Luiz Melodia
"Mutilada como tantas obras de então, essa estreia apresentou o talento bruto e a inspiração lapidar de um poeta popular que trazia em cérebro e vísceras o melhor de dois mundos: o da tradição nacional e o da modernidade global. Foi provavelmente o primeiro compositor a surgir com tal perfil em uma favela brasileira. Nada mais sanguíneo, mais corporalmente integrado do que o samba e o blues de suas composições, a ginga do intérprete de singularíssima e bela voz corcoveando entre rock, jazz, forró, samba-choro e qualquer outro gênero que servisse para expurgar suas angústias e lamentos. ‘É a minha barra, o que acontece’, antielaborou ele, em uma entrevista da época, depois de deixar claro que não queria ser visto ‘como um coitadinho’. Tímido, porém, altivo, o jovem de 21 anos chegou pronto, tinindo de genialidade precoce tal qual um Rimbaud negro". (Fragmento do artigo "Preciosidade Única", de autoria de Pedro Só)
"Secos & Molhados" - Secos & Molhados
"Trinta minutos e meio. É o tempo do primeiro disco dos Secos & Molhados. Relativamente curto para um LP, especialmente em 1973. Porém, pouco mais de meia hora foi o suficiente para revolucionar a cultura brasileira. A breve duração do álbum se deveu, em parte, à censura daqueles tempos. A maioria do repertório de ‘Secos & Molhados’ era composta de poemas famosos musicados. E nem poetas consagrados escapavam do crivo. Assim, ‘Tem gente com fome’, de Solano Trindade, teve sua versão musical proibida. Composições próprias do líder João Ricardo, como ‘Tristeza militar’, sofreram o mesmo revés. Mas as canções que chegaram ao disco tinham beleza de sobra para encantar o público do começo dos anos 70. Hoje muito se fala na importância dos Secos & Molhados como contestadores em plena ditadura, mas esse era não era o único trunfo da banda. Para os fãs de todas as idades, o que agradava mesmo era o espetáculo, a musicalidade e o mis en scène. Numa época em que havia artistas brazucas se fazendo passar por americanos para fazer sucesso, o grupo conseguiu atingir uma fatia de público que era resistente à música brasileira. Era comum encontrar o primeiro LP da banda em coleções onde só entravam discos de músicos estrangeiros. Para o mercado local, os Secos & Molhados tinham o mesmo valor de astros internacionais." (Fragmento do artigo "Meia hora de encantamento", de autoria de Emílio Pacheco)



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