A música erudita é uma indústria, e duas efemérides deverão abastecer seu faturamento em 1997. Franz Schubert (1797-1828) terá seus 200 anos de nascimento comemorados a 31 de janeiro, e Johannes Brahms (1833-1897) os 100 anos de sua morte a 3 de abril. Deverá ser também lembrado, no Brasil, o centenário de nascimento de Francisco Mignone (1897-1986), um dos mais palatáveis, rigorosos e ecléticos compositores da geração modernista.
Outro centenário de nascimento: o do carioca Lorenzo Fernandez (1897-1948), conhecido pela peça sinfônica ‘‘Batuque’’, mas também autor de uma ópera (‘‘Malasarte’’), duas sinfonias, e uma profusão de peças de câmara.
Schubert e Brahms integram o mercado discográfico globalizado. Deverão ter um tratamento incomparavelmente melhor que o aqui recebido, este ano, por Carlos Gomes (1836-1896), cujo centenário de morte foi pouco lembrado. Em tese, e independentemente do mérito de sua música, Mignone possui um cacife ainda menor. Não foi protegido de D. Pedro II, não chegou a ser modismo na Europa, nem se tornou cartão-postal sinfônico do Estado Novo.
Mas há efemérides e efemérides. Dois compositores comercialmente fracos - embora importantíssimos na história da música - foram este ano tratados com displicência. São eles o sinfonista Anton Bruckner (1824-1896), cujo centenário de morte foi discretamente comemorado na Áustria com um festival em Linz, e Benjamin Britten (1913-1976), cujos vinte anos de morte não desencadearam nenhum revival na Inglaterra.
Mesmo com uma programação forte e lançamentos abundantes, Schubert e Brahms não representarão, em conjunto, algo semelhante ao que ocorreu com Mozart em 1991 (200 anos da morte).
Mozart é um nome capaz de agregar mitos biográficos, e, tanto quanto ele, tudo indica que só no ano de 2027 ocorrerá com o mercado algo semelhante. Serão os 200 anos da morte de Beethoven.
Romantismo Schubert e Brahms correspondem ao início e ao fim do romantismo, conjunto de idéias estéticas que em longevidade só perdeu para o barroco e que ainda permanece como ponto de referência para a concepção que se tem da sinfonia, do quarteto, do teatro lírico ou da canção (o lieder germânico).
Quanto a Mignone, ele integrou uma geração de compositores que incorporou os elementos harmônicos populares a formas consagradas da retórica musical européia. Há nele poemas sinfônicos e sonatas, mas também congadas, maxixes e valsas-choros.
De Franz Schubert já há bons lançamentos em CD. A Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera gravou a ‘‘Missa em Mi Bemol’’ (D.950), sob a direção de Carlo Maria Giulini. Yo-Yo Ma (violoncelo) e Emmanuel Ax (piano) compõem um quinteto com uma nova versão de ‘‘A Truta’’ (D.667) e, por fim, há peças para piano com Alain Planes e Michele Scharapan.
A discografia de Brahms também se enriquece. Há o relançamento de uma ‘‘Quarta Sinfonia’’, op. 98, que Wilhelm Furtwangler regeu, em 1942, com a Filarmônica de Berlim. A notar, também dois quartetos de gravação recente (op. 25 e 60) com Ralph Gothoni (piano), Peter Csaba (violino), Matti Hirvikangas (viola) e Frans Helmerson (violoncelo).
Em São Paulo, ainda é cedo para conhecer a quantidade de Schubert, Brahms e Mignone ou Fernandez que as temporadas de concerto deverão programar. A Orquestra Sinfônica Municipal ainda está esboçando sua programação, que deverá dar a Mignone um lugar de destaque.
O Mozarteum e a Sociedade de Cultura Artística já fecharam as listas de intérpretes estrangeiros, mas ainda negociam o repertório.

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