O ano de Bad Bunny: prêmios, política e o poder da cultura latina
Saiba como o artista vencedor de cinco Grammys transformou um disco na defesa da história e da cultura de sua terra natal
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de novembro de 2025
Saiba como o artista vencedor de cinco Grammys transformou um disco na defesa da história e da cultura de sua terra natal

O Grammy Latino 2025 consagrou, no dia 13 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos, o cantor porto-riquenho Bad Bunny com o principal prêmio da noite, o título de melhor álbum do ano para “Debí Tirar Más Fotos”. O trabalho rendeu a ele 12 indicações, no total.
O grande favorito da 26ª edição do prêmio venceu em cinco categorias. Além de Álbum do Ano, Melhor Álbum de Música Urbana, Melhor Canção Urbana, Melhor Fusão/Interpretação Urbana e Melhor Interpretação de Reggaeton.
"Obrigado a todas as pessoas que trabalharam neste álbum, são muitas e levo todas no meu coração", disse o artista ao aceitar o prêmio de álbum do ano, dedicando-o a "todas as crianças e jovens da América Latina".
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Para quem acredita que 2025 foi o ano de Bad Bunny, é preciso lembrar que ainda tem 2026. Dia 1º de fevereiro deve reservar mais emoções para os fãs de Benito Antonio Martínez Ocasio porque a cerimônia do próximo Grammy tem o artista concorrendo a álbum, gravação e canção. Se tudo der certo para o porto-riquenho, ele poderá deixar a Crypto.com Arena, de Los Angeles, com um feito histórico: depois de ser o primeiro latino a ser indicado nas três categorias em uma única edição, pode ser o primeiro a vencer na categoria álbum do ano no Grammy Latino e no Grammy.
MÚSICA E POSTURA
“Debí Tirar Más Fotos” foi lançado em janeiro de 2025 alçando Bad Bunny a um outro patamar da história recente da música latino-americana. A jornalista Janaína Ávila, apresentadora e produtora do programa Mundo Sonoro, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), ressalta que o álbum resgatou ritmos tradicionais da América Latina, lembrando que o artista é um expoente do reggaeton, estilo que surgiu no final dos anos 1990 em Porto Rico, unindo reggae jamaicano e hip hop americano. “Ele chamou a atenção para outros públicos dessa música tradicional latina”, afirmou Ávila, que integra a Transglobal World Music Chart e a LIMùr, lista ibérica de música de raiz.
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Um exemplo desse resgate é “Nuevayol”, que faz referência à canção "Un Verano en Nueva York", da década de 1970, e a forte influência da comunidade latina na cidade. “Nuevayol" significa "Nova York" com sotaque latino.
Não foi à toa que o recém-eleito prefeito de Nova York, o socialista Zohran Mamdani, durante campanha, fez um vídeo para a comunidade latina dizendo, em alto e bom som, “Nuevayol!”, imitando Benito.
“Outra contribuição do disco é que Bad Bunny começou a tocar temas muito sensíveis. É um disco superpolítico. Ele fala de exploração, fala das questões relacionadas à violência contra a mulher, fala da situação do povo de Porto Rico. Então isso também levou o disco para além de uma música de festa”, explica Ávila.
Na opinião da jornalista, foi uma ousadia trazer a política para o reggaeton. “Foi um ato de muita coragem levar esses questionamentos para quem, de repente, escuta a música só pra se divertir, quando ele está fazendo um convite à reflexão”, opina.
IMIGRANTES NOS EUA
O posicionamento político colocou Bady Bunny como antagonista do presidente Donald Trump quando se trata do tratamento que o republicano dispensa, nesse segundo mandato na frente da Casa Branca, aos imigrantes, principalmente latino-americanos.
Ele definiu a sua turnê mundial sem passar pelos Estados Unidos pela preocupação do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega, atuar nos portões dos estádios e prender seus fãs.
A estratégia fez Debi Tirar Mas Fotos World Tour 2025/2026 começar por Porto Rico, realizando 31 shows no território dos EUA no Caribe. A iniciativa foi uma grande jogada de Benito para empoderar a cultura, a economia e a política da sua terra natal.
“Foi muito legal que Bad Bunny, durante o verão, fez a residência dele em Porto Rico, fazendo shows e levando celebridades e o movimento artístico para seu país. Ele criou um conjunto de valorização e orgulho nacional”, afirma Ávila.

SUPER BOWL
A missão de exaltar a cultura da América Latina para o mundo não termina com o lançamento de “Debi Tirar Mas Fotos” e nem com o início histórico da turnê que deixa agora em novembro Porto Rico e segue por diferentes continentes. No Brasil, as apresentações acontecerão em São Paulo, nos dias 20 e 21 de fevereiro.

Em outubro deste ano, o músico de apenas 31 anos foi anunciado como principal atração no intervalo do Super Bowl do ano que vem, colocando a direita norte-americana em guerra com a NFL, a liga de futebol americano, por levar para o gramado do icônico campeonato um artista que canta em espanhol e que se negou a criar versões em inglês para o show que acontecerá em 8 de fevereiro de 2026, em Santa Clara, Califórnia.
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Como tudo o que faz se transforma em um acontecimento, a justificativa em aceitar cantar no Super Bowl também viralizou. Com um monólogo na estreia da nova temporada do programa SNL ("Saturday Night Live"), Benito começou falando em inglês. Disse que estava feliz e que a escolha de seu nome representava uma vitória principalmente para todos os latinos do mundo e dos Estados Unidos.
"Mais do que uma conquista minha, é uma conquista de todos (...) Ninguém poderá apagar nossa marca e a nossa contribuição para este país", acrescentou Bad Bunny, agora em espanhol, voltando ao inglês em seguida, para concluir: "Se você não entendeu o que eu acabei de dizer, tem quatro meses para aprender."
E assim Benito vem mostrando, por meio de shows históricos, letras e vídeos com apelos políticos e algumas homenagens surpreendentes, muito amor às origens, além de provar que a América Latina tem valor e é pop.
Uma dessas homenagens inesperadas se deu no SNL, na noite do monólogo sobre o Super Bowl, quando o artista estrelou uma esquete e recriou um episódio do seriado mexicano Chaves, representando o querido Kiko.
Com Chaves, Bad Bunny apresentou às novas gerações de jovens americanos um pouco da cultura popular da América Latina, mostrando como a arte estreita distâncias.
Uma palhinha do que deverá ser, no Super Bowl, um momento histórico e simbólico da reafirmação de que América Latina não precisa se moldar ao estilo estadunidense para chegar aos locais mais altos do entretenimento e da cultura. (Com Agência France Presse)


Adriana De Cunto
Chefe de Redação da Folha de Londrina.




