Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
Na dúvida se todo homem é um animal ou todo animal é um homem, o escritor Alessandro Boffa considerou as duas possibilidades para criar as histórias de seu livro ‘‘Você é Um Animal, Viskovitz’’. Lançado pela Editora Companhia das Letras, a obra reúne 20 contos protagonizados por animais. Estão presentes formigas, tubarões, abelhas, vermes, camaleões, cachorros, pássaros, etc. Em todos os textos o herói atende pelo nome de Viskovitz e, invariavelmente, está apaixonado por uma fêmea chamada Liuba. Alessando Boffa coloca humanidade no comportamento animal para mostrar a animalidade do homem. Para isso utiliza a ironia e, principalmente, o humor.
Como os animais não pensam em sexo, apenas fazem, ele é o elemento mais frequente na existência de Viskovitz, seja ele um escorpião ou um louva-a-deus. Na condição de caramujo, por exemplo, Viskovitz vive o drama da sexualidade. Além de descobrir que existia algo chamado sexo, descobriu que tinha dois deles. Numa conversa íntima, o pai ensina que os caramujos são hermafroditas: ‘‘Meu filho, somos capazes de desenvolver tanto a função masculina como a feminina, não há de que se envergonhar.’’
O jovem caramujo, convencido, assume a função masculina e se recusa acasalar com seus amigos de escola. Então parte em busca de uma fêmea, coloca o pé na estrada. Avista um bela fêmea ao longe e coloca-se a caminho. Após dias de caminhada percebe que a fêmea avistada é um macho e ele próprio que se acreditava macho, tornara-se uma fêmea
No texto ‘‘Nem Tudo o Que Reluz é Ouro’’ Viskovitz é um escaravelho. Logo ao nascer recebeu calorosos elogios da mãe por sua beleza. Mas o pai, mais sensato da família, passa a mostrar ao garoto que para os escaravelhos a beleza não significada nada: ‘‘Somos estercorários, rapaz, e a única coisa que conta na nossa existência... bem, ahn... é a merda.’’
Viskovitz encara seus destino com audácia. Para acumular bolas de esterco animal, forma uma gangue de jovens delinquentes que roubam bolas dos fracos e oprimidos. Acumulando uma ‘‘grande riqueza em merda’’ torna-se um rico e poderoso escaravelho. Sua tragédia tem início quando se apaixona por Liuba, um belo inseto fêmea.
Liuba, um besouro de raça, não um escaravelho qualquer, se recusa a viver no palacete de excrementos do amado. Viskovitz chega a cogitar a possibilidade de abandonar tudo e levar uma vida limpa ao lado da futura esposa. Mas para isso precisa destruir o orgulho do pai, o orgulho em ter um filho que venceu na vida.
Apesar das histórias de Alessandro Boffa pertenceram ao território da ficção, os elementos biológicos estão todos baseados em informações científicas. A base dos comportamentos dos animais descritos são todos reais, pautados pela biologia e zoologia.
O humor e ironia é elemento determinante. Em outro conto, ‘‘Que Bela Porcaria’’, Viskovitz é um porco que questiona os conselhos da mãe, conselhos proferidos horas antes dela virar presunto: ‘‘Lembre-se sempre do que você é, filho: um porco. Procure sempre comer porcarias, ser porcalhão e pensar imundícies. Faça que a sua casa seja uma verdadeira pocilga e no trato com todos faça sempre o que mais porcamente lhe convier, como aquele suíno do seu pai.’’
Apaixonado por um porquinha chic, nova no chiqueiro, Viskovitz acaba fazendo uma das maiores loucura da sua vida. Procurando seduzir a ‘‘vênus gorda e bunduda’’, realiza alguns passos de dança. Alguns homens presenciam a cena e o jovem porco é vendido para um circo.
Suíno dedicado e ambicioso, realiza as artimanhas mais impossíveis para atingir a fama e acaba se tornando milionário passando a viver num palacete mastigando charutos e tomando banho em champanhe. Por fim, candidata-se à eleições presidenciais com grandes chances de vitória.
Em ‘‘Você é Um Chifrudo’’ Viskovitz é um alce que leva anos procurando vencer os demais machos para conquistar a chefia da manada e ter o privilégio de fecundar todas as fêmeas da região. Após muito esforço, consegue seu objetivo mas, antes de começar a festa orgiástica, precisa resolver, como chefe, uma montanha de problemas como afugentar lobos, evitar caçadores, procurar água, proteger os jovens, etc. São tantas as tarefas impostas à Viskovitz que, quando ele finalmente consegue resolver todas elas, as fêmeas não estão mais no cio. Só lhe resta esperar o próximo ano, a próxima primavera.
Boffa é um jovem escritor italiano - embora tenha nascido em Moscou em 1955 filho de pais italianos. Abandonou a profissão de biólogo para se dedicar ao comércio de pedras preciosas. Em seguida abandonou as pedras para se dedicar à literatura, em Roma. ‘‘Você é um Animal, Viskovitz’’, sua primeira obra de ficção, publicado na Itália no ano passado, ganhou o prêmio Elio Vittorini de 1998.
É impossível não comparar os textos de Alessando Boffa com a literatura do escritor italiano - nascido em Cuba - Italo Calvino (1923 - 1985) no livro ‘‘As Cosmicômicas’’. As semelhanças são evidentes, o que não pode ser considerado um dado depreciativo. A primeira semelhança está no humor utilizado pelos dois autores, a segunda está na estrutura do enredo. Os personagens de Calvino em ‘‘As Cosmicômicas’’ (Editora Companhia das Letras, 1992) são matérias cosmológicas que atendem pelo nome impronunciável: Qfwfq. Qfwfq é um herói inumano que possui todas as faculdades humanas. Seus dramas são tão humanos quanto os dramas cotidianos de qualquer cidadão. Viskovitz segue o mesmo padrão.
Calvino e Boffa revelam, com humor, que a humanidade está fadada à um beco sem saída: sempre verá e interpretará os seres e o universo de acordo com a perspectiva exclusivamente humana. Humanizar o universo é seu destino. Um destino que não é necessariamente bom, nem ruim, mas carregado de ironia.
‘‘Você é Um Animal, Viskovitz’’ de Alessandro Boffa, Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 144 páginas, R$ 20,50.

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