O andarilho de sorte
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de março de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Geralmente os equívocos são desagradáveis. O tipo de coisa que deixa você sem entender nada. O tipo de coisa que pode gerar confusão. Basta imaginar, por exemplo, uma mulher entrando equivocadamente num banheiro masculino. Ou um homem entrando erroneamente num banheiro feminino.
Mas, em algumas situações, o equívoco pode gerar coisas boas. Ou seja, a confusão e o não entendimento podem gerar um bom entendimento da vida. Existem vários contos populares que retratam situações deste tipo.
Uma dessas histórias acaba de receber nova versão da escritora Tatiana Belinky no livro infantil ''Kanniferstan''. Lançado pela Editora FTD com ilustrações de Laurent Cardon, traz um antigo conto popular alemão de origem oral. A própria versão narrada por Tatiana é justamente aquela contada por seu pai quando ela tinha dez anos de idade. Hoje ela tem 86 anos.
''Kanniferstan'' conta a história de um pobre operário alemão que decidiu correr mundo, tornar-se um andarilho. Seu objetivo era conhecer lugares e pessoas diferentes. Assim, com uma mochila nas costas e um cajado na mão, colocou o pé na estrada.
Certo dia, após uma longa caminhada, chegou a Amsterdã, cidade portuária da Holanda. Ficou encantado com a rica beleza da cidade. Encantado com o que via, perguntava aos transeuntes a quem pertencia aquelas casas maravilhosas, aqueles barcos enormes, toda aquela riqueza.
Todos respondiam ''kanniferstan'', apenas ''kanniferstan''. O andarilho, deslumbrado, pensou que o tal Kanniferstan era um homem de sorte com toda aquela riqueza. Logo após pensar na sorte do sujeito, viu um grupo de pessoas carregando um luxuoso caixão em direção ao cemitério. Perguntou a uma das pessoas quem havia morrido, ouviu como resposta ''kanniferstan''.
O andarilho levou um susto. Kanniferstan, homem de sorte, dono de enorme riqueza, estava dentro de um caixão para ser enterrado. Após um momento de tristeza, percebeu que o homem de sorte, na realidade, era ele. Apesar de possuir apenas uma mochila e um cajado, estava vivo. E podia seguir caminhando mundo afora.
Nesse momento você deve estar se perguntando: ''Mas onde está o equívoco da história?'' Bem, acontece que o andarilho não falava uma palavra em holandês. Toda vez que indagava alguém, usava sua língua nativa, a alemã. Os habitantes de Amsterdã, que não entendiam uma única palavra em alemão, respondiam simplesmente ''kannniferstan''. Em holandês, a palavra ''kanniferstan'' significa ''não compreendo''. O interessante é que o andarilho nunca soube disso.
Serviço:
- Livro ''Kanniferstan'', de Tatiana Belinky, ilustrações de Laurent Cardon. Ediora FTD, coleção Contos Populares, 24 páginas, R$ 17,60.
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