Vestido com um impecável terno branco, Ismael Silva acompanhava os desfiles da Deixa Falar fora da corda que isolava os foliões. Como fundador da primeira escola de samba, Silva se dava ao luxo de optar por paradas estratégicas para uma cervejinha, enquanto as alas evoluíam, durante a década de 30.
Outro sambista veterano, Paulo da Portela, adorado em seu meio, também não dispensava o terno alinhado. Havia até uma imposição na Portela: em dia de desfile ou apresentação, ninguém aparecia de chinelos ou tamancos, como era comum nos morros cariocas. Paulo exigia sapato fechado, para desconforto de alguns sambistas.
Aos poucos, a preocupação estética dos dirigentes foi embutida nas escolas. Paulo da Portela, por exemplo, foi responsável pela institucionalização de alegorias nos desfiles e, posteriormente, proibiu que os integrantes de sua escola entrassem na avenida sem fantasias.
Com o tempo, alegorias e fantasias se associaram a temas que, por sua vez, influenciaram as letras das melodias cantadas. Aos poucos, essa associação se intensificou, o samba sofreu algumas modificações e tornou-se conhecido como samba de enredo e, posteriormente, samba-enredo.
Essa transformação teve a ingerência de órgãos oficiais, como a polícia e o governo. É que, congregando boa parte de desempregados e malandros em suas fileiras, os blocos atraíam a atenção das autoridades, que muitas vezes reagiam com violência.
Por isso, o surgimento do título ‘‘escola de samba’’, a opção pelo visual bem cuidado e outros detalhes facilitavam a convivência com a polícia. A repressão era tanta que o bloco Vai Como Pode foi obrigado a trocar de nome por ‘‘sugestão’’ de um delegado em 1935, ganhando um título pomposo: Grêmio Recreativo Escola de Samba da Portela.
Esses detalhes são narrados na obra ‘‘Pequena História da Música Popular’’, do pesquisador José Ramos Tinhorão, um dos mais respeitados e polêmicos do meio musical brasileiro. O escritor observa com desconforto os rumos tomados pelo samba-enredo. Tanto que hoje, argumenta, já nem se trata de samba, e sim de marcha, tamanha a deturpação que sofreu com o passar dos anos.
O samba-enredo, a música que embala o desfile das escolas de samba - considerado a maior atração do Carnaval brasileiro - carrega uma história rica, cheia de detalhes tortuosos e, muitas vezes, decepcionante. Tanto que o rumo tomado pelos desfiles privilegiou os aspectos visuais, banindo alguns grandes sambistas da avenida.
Também para agradar às autoridades, na década de 30, as escolas de samba adotaram temas patrióticos, para não confrontar a propaganda ufanista do governo Getúlio Vargas. ‘‘Eu me lembro, nos sebos, daqueles sujeitos com cara de quem nunca havia entrado numa livraria procurando livros de história do Brasil. Eles compravam obras ginasiais, liam, debatiam com outros compositores e faziam o samba-enredo’’, comenta José Ramos Tinhorão, em entrevista à Folha2.
Como outras manifestações populares, o samba-enredo nasceu naturalmente. ‘‘Essas coisas não surgem da cabeça de uma única pessoa, elas vão evoluindo. As escolas de samba eram de interesse apenas dos participantes e suas picuinhas, suas rivalidades. As escolas geravam paixão e respondiam a uma necessidade da comunidade. A criação popular se faz lentamente. Eles foram aprendendo o estilo do samba-enredo com o fazer’’, ressalta Tinhorão.
Com o ufanismo e a ingerência governamental, as letras assumiram o formato de poemas épicos, com recursos de retórica e versos empolados. O samba-enredo se desenvolveu na década de 40, quando a improvisação já não fazia mais parte dos desfiles. Antes, era comum a escola desfilar apenas com a primeira parte da letra fixa. A segunda era improvisada pelos puxadores, que cantavam sem aparelhagem no meio dos integrantes. O refrão era repetido em coro por todos.
A mudança se tornou necessária com o crescimento das escolas, que passaram a contar com centenas de integrantes. Os solos improvisados, portanto, se tornaram difíceis de serem escutados. Já o samba-enredo, com versos fixos, era cantado por todas as alas. ‘‘A criação é um processo de fazer contínuo e ganha, no caminho, as modificações e acrescentamentos da realidade’’, assegura Tinhorão.
Com o aumento do número de integrantes - hoje algumas escolas desfilam com mais de 4 mil figurantes - e o tempo limitado em 80 minutos para o desfile, o ritmo foi acelerado para que a evolução ocorresse em tempo hábil. Essa aceleração teria, segundo o pesquisador, alterado a própria música. ‘‘Já não é mais samba, é marcha’’, ressalta o pesquisador.
A forma de escolher um samba-enredo também sofreu alterações. Antes, o compositor levava seu samba à quadra de ensaios e apresentava com outros concorrentes. ‘‘Os sambistas convergiam para a Praça Onze, no Rio de Janeiro, onde se comparavam. O pessoal do bairro assistia, era um grande bloco que ia cantando, até que se escolhia o samba pela aceitação. Não tinha aquela pressão do carnavalesco, que hoje chega a impor a inclusão de termos na letra da composição. O julgamento era democrático’’, acentua o escritor.
Mas, com o tempo, os compositores passaram a organizar claques para aplaudir o samba, e as artimanhas para aprovar uma composição foram aumentando. ‘‘Começaram a chamar bons cantores para puxar a música e entusiasmar a comunidade, e a coisa foi caminhando para transformar o espetáculo em algo chato e repetitivo’’, completa.
Para Tinhorão, o espetáculo hoje seria resultado de um processo de burocratização de uma festa que não deveria ser organizada: ‘‘A improvisação original tem riqueza. Quando a coisa foi previamente programada, se burocratizou. Levei muito pau porque enxerguei isso quando todo mundo achava que iria melhorar.’’
O processo resultou num afastamento das camadas populares da avenida, incluindo passistas e compositores. ‘‘A escola de samba não representa mais nada. O que representa o Carnaval é o bloco vagabundo, o sujeito que sai vestido de bebê com cerveja no penico para brincar com os outros. O Carnaval é subversão. Quando se impõe uma ordem você mata essas características. Ao deixar de ser esculhambação, o Carnaval trai suas origens.’’ Voltado para os aspectos visuais e o interesse turístico, o desfile das escolas de samba estaria, portanto, descaracterizado como manifestação popular.

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