Amor de mãe justifica tudo. Como o assunto é atemporal e sempre crível em qualquer trama, continua a ser explorado pelos autores nas mais diversas novelas. Afinal, ainda que nas tramas os sacrifícios maternos sejam levados a situações extremas, eles não costumam ser questionados pelo telespectador. Para as mães, tudo parece aceitável, por mais absurdo que seja. Como quando a Helena, de ''Por Amor'', vivida por Regina Duarte, troca seu filho vivo pelo neto morto só para que sua filha Maria Eduarda, de Gabriela Duarte, não sofresse. Em ''Beleza Pura'', folhetim das sete da Globo, a personagem Helena, de Mônica Martelli, se traveste de homem e assume a identidade do marido morto para garantir o sustento do filho. ''Ela aceita o emprego no lugar do marido movida pelo desespero de ter de sustentar o filho, que é doente. A Helena segue em frente, não se faz de vítima. Ela é aquela mulher por quem o povo torce'', diz a atriz.
''Laços de Família'', exibida pela Globo, tinha como fio condutor a relação de amor e desprendimento da mãe Helena com a filha Camila, interpretadas por Vera Fischer e Carolina Dieckmann. Na novela de Manoel Carlos, a personagem de Vera desistiu do namorado Edu, papel de Reynaldo Gianecchini, em favor da filha, que viria a se apaixonar por ele. Mais adiante, o público assistiu a um sacrifício maior. Helena se aproximou de Pedro, interpretado por José Mayer, com quem teve um romance anos antes e engravidou intencionalmente na esperança de que o bebê pudesse salvar a vida de Camila, com leucemia. Helena planejou a gravidez sem revelar um segredo do passado: Pedro era o verdadeiro pai da jovem. ''Ela abdicou duas vezes pela filha. Às vezes o público pode não aceitar o comportamento de uma mãe, mas entende ou faz-de-conta que aceita'', acredita Vera Fischer. Nas tramas de Manoel Carlos, são comuns as mães que ultrapassam os limites da razão para garantir a felicidade do filho. ''Nenhuma Helena que fiz foi muito heróica. Elas são extremamente humanas e cheias de defeitos'', analisa o autor.
Na pele da Laura, de ''Ciranda de Pedra'', novela das seis de Alcides Nogueira, Ana Paula Arósio interpreta a mãe de três meninas. Resignada, ela aceita sofrer com o casamento infeliz por amor às filhas. Como a caçula é fruto de um relacionamento extraconjugal que teve com o médico Daniel, vivido por Marcello Antony, Laura cede às chantagens do marido Natércio, papel de Daniel Dantas, por medo de perder a guarda das meninas. ''Acaba sendo uma situação familiar muito complicada, porque tudo o que ela quer é ficar com as filhas'', justifica. A exemplo de Ana Paula, Nicette Bruno e Irene Ravache também deram vida a uma mãe sofredora. Ambas interpretaram Dona Lola, de ''Éramos Seis''. Nicette assumiu o papel na primeira versão, de 1977, na TV Tupi, e Irene na segunda, de 1993, no SBT. ''Dona Lola foi a clássica mãe de novelas e a mais extremada que escrevi. Quando centramos na figura da mãe, é sempre uma garantia de que o público vai estar atento e se identificando'', explica Silvio de Abreu.
Em ''Amor e Intrigas'', o mau caráter Bruno, papel de Otaviano Costa, tem vergonha de suas origens humildes e não hesita em destratar a própria mãe, Dora, vivida por Sônia Guedes. Apesar das atrocidades cometidas pelo filho, a personagem continua a protegê-lo e a defendê-lo com unhas e dentes. Segundo Gisele Joras, autora do folhetim da Record, tamanha compreensão é plenamente justificável em se tratando da relação mãe e filho. ''Por ser um sentimento incondicional, o amor materno dá inúmeras possibilidades a um autor. Nenhum sacrifício em nome desse amor é considerado exagerado'', acredita.
As histórias em torno das relações entre mães e filhos estão carregadas de dramas e conflitos. Mas também há espaço para aquelas com um toque de comicidade ou praticidade. Aracy Balabanian roubava a cena em ''Rainha da Sucata'', como a mãe superprotetora Dona Armênia. Tudo o que a personagem queria era ver seus filhos felizes. Já Irene Ravache, intérprete de Katina, outra mãe estrangeira criada pelo mesmo autor, Silvio de Abreu, distribuía seu amor escandaloso aos filhos em ''Belíssima''. ''Seja ela armênia, chinesa, grega ou brasileira, acho interessante retratar essa figura levando-a para o humor, o que afasta um novelista de cair no clichê da mãe sofredora e sacrificada'', opina.
Autora de ''Chamas da Vida'', próxima novela da Record, Cristianne Friedman acredita que uma mãe protetora pode render cenas divertidas às tramas ''É só subirmos um pouco o tom desta proteção. Mas também podemos usar o registro do drama''.

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