Não há como explicar a fascinação que uma história causa em alguém. Nossa linguagem evidencia toda a sua limitação quando tentamos compreender personagens como Hamlet, Dom Casmurro ou até mesmo o último Godard. Um desses lances inexplicáveis ocorreu há quatro anos quando a cineasta Josiane Orvatich estava a ler ‘‘A Cidade Sitiada’’, de Clarice Lispector. ‘‘No meio do romance surgiu um capítulo que mudou tudo. Comecei a fazer várias anotações e fiquei tomada pelo tema’’. Ela encontrara Perseu, personagem ligado à infância e adolescência da protagonista Lucrécia, que reaparece especialmente nesse capítulo do romance.
Mesmo sem ter lido o livro, o espectador conseguirá entender a história de Perseu, garante Josiane. ‘‘Ele tem vida independente da obra’’. A cineasta, autora do roteiro, pretende rodar o curta-metragem ‘‘Os Primeiros Desertores’’ no mês que vem, em algumas locações na região norte do Estado. ‘‘Visitei algumas cidades e ainda estou decidindo onde filmar algumas cenas. Devo rodar o encontro dos protagonistas na estação rodoviária de Jaguapitã, mas não está nada certo ainda’’. O curta, patrocinado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba, está orçado em R$ 100 mil, e já captou 70% do previsto. Com direção de Josiane e fotografia de Celso Kava, ‘‘Os Primeiros Desertores’’ será estrelado por dois atores de Curitiba: Rodrigo Ferrarini e Cristina Macedo.
A própria cineasta já foi atriz. Nascida em Maringá, com ascendência eslava, aos 18 anos foi aprovada nos cursos de direito da Universidade Estadual de Maringá e da Universidade Estadual de Londrina: ‘‘Fiquei uma semana em Londrina e decidi me mudar para Curitiba’’. Iniciou o curso de Artes Cênicas da Faculdade de Artes do Paraná, processo interrompido dois anos depois, quando ingressou na Pontifícia Universidade Católica cursando Filosofia. Durante esse período, participou de três montagens teatrais em Curitiba, além de ter atuado em ‘‘Mulheres do Reino’’, um vídeo institucional em que interpretava uma aspirante ao sacerdócio.
Os primeiros contatos com a sétima arte começam na função de continuísta. ‘‘Aprendi muito com Eduardo Aguilar (assistente de direção de Carlos Reichenbach); na época não sabia nada sobre essa função’’. Sua primeira participação ocorreu no curta ‘‘Atraídos’’, de Maurício Yared. Trabalhou em outros seis filmes nessa função e atuou na assistência de direção em três projetos: ‘‘Valdir & Rute’’ e ‘‘Polaco da Nhanha’’, de Eloi Pires Ferreira, e ‘‘Aldeia’’, de Geraldo Pioli.
O primeiro trabalho como diretora foi um documentário educacional produzido em vídeo Betacam há dois anos: ‘‘Através do Espelho’’, sobre as doenças a que travestis estão expostos. ‘‘Os Primeiros Desertores’’ será seu primeiro projeto ficcional: ‘‘Pretendo me dedicar nos próximos anos a duas áreas: cinema e filosofia. Não devo abandonar nenhuma das duas’’. Josiane, após a graduação em Filosofia na PUC, concluiu o curso de especialização em psicologia analítica na mesma instituição. Agora pretende ingressar no mestrado na Universidade de Campinas, aprofundando-se nessa área.
Para Josiane, ‘‘Os Primeiros Desertores’’ é uma história sobre duas pessoas que resistem ao amor. ‘‘Eles se encontram em uma rodoviária, ela puxa assunto, se conhecem e têm um sentimento muito forte. Mas sabem que não podem se envolver. Então desistem de prosseguir’’. A cineasta explica que a ideologia imperante em nossos dias sempre evoca uma idéia de vitória, o que é perigoso e falso: ‘‘Nem sempre conseguimos vencer, não podemos tudo’’. O título situa os personagens em uma posição mítica, em que eles se tornam os primeiros a desistir do amor. A deserção vem da idéia de abandono, de condenação a algo proibido.
Josiane sabe que não se pode explicar o que motiva o casal protagonista do filme a não se permitir uma relação mais profunda: ‘‘Não há respostas. Ele (Perseu) não quis porque não podia. Eles estão marcados por relações dolorosas do passado. Tiveram referências sobre o que é um relacionamento e não querem mais. São os primeiros a assumir o medo’’.
O leitor pode estar perguntando: como será essa adaptação de Clarice para as telas? Bem, pelas preferências de Josiane tem tudo para dar certo. Além da autora de ‘‘Laços de Família’’ (Clarice), ela gosta de Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Raduan Nassar (‘‘antes de ele virar moda’’) e Manoel de Barros. Em cinema, gosta de muitos autores (Godard, Tarkovsky, Bergman) mas não reconhece nenhuma influência específica: ‘‘Acho que muitas coisas da vida me influenciam’’. Certamente o filme terá o sabor das grandes obras, que resiste ao apelo comercial e aposta na sutileza das ambiguidades.

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