O amor pede passagem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Paulo Autran, Karin Rodrigues e Celso Franteschi: relações amorosas em Para SempreDuas peças em cartaz em Curitiba falam de um mesmo tema: o amor. Os caminhos são variados, as situações distintas, os espetáculos idem. No palco do Guairão encontram-se Paulo Autran, Karin Rodrigues e Celso Franteschi. No Teatro Fernanda Montenegro Luciana Braga, Claudio Fontana, Letícia Teixeira e Romis Ferreira respondem pela montagem. Ao público cabe a escolha.
A maior dramaturga brasileira, Maria Adelaide Amaral, tentou escrever uma comédia para Paulo Autran e não conseguiu. O ator, num misto de queixa e desafio, disse-lhe certo dia: Gosto tanto do que você escreve! Mas por que não é capaz de escrever um texto pra mim?. Começou a nascer aí, dessa inquietação, a peça Para Sempre, que estará em cartaz de hoje a domingo no Guairão.
A história que fala do amor hetero e homossexual reúne Autran, Karin Rodrigues e Celso Franteschi. Autran é Max, professor universitário e escritor de renome, o tipo bem acabado do intelectual egocêntrico. Talvez ele ame, à sua moda; e seja amado. Mas no íntimo traz solidão e fragilidade.
Tony, bem mais jovem que Max, é de origem simples, aprecia o que é bom e, de espírito autêntico e transparente, pouco se dá aos convencionalismos. Não se constrange, por exemplo, em dizer que gosta de novelas e Chitãozinho e Xororó. Pessoa de fácil convivência, pertence ao mundo daqueles que têm pouco a perder.
Eva, apesar das boas qualidades e do que a vida lhe deu - artista plástica charmosa, bonita, inteligente -, ainda assim é um tanto frustrada no campo profissional e no afetivo. Tem por Max um afeto de extrema generosidade, mas essa grandeza não quer dizer que ela seja auto-suficiente. Eva é uma mulher terrivelmente carente, embora suas características sejam a objetividade e o otimismo. Além do mais é excelente mediadora.
Essas personalidades bem traçadas pela autora acabam se encontrando e se despindo numa sala de visitas. Ali estão os dois homens, que dividem o mesmo teto há 18 anos, e a mulher profundamente amiga de um deles. São histórias interdependentes, mas que acabam se encontrando e se chocando em algum ponto da trajetória, com a história vizinha.
SentimentosMaria Adelaide Amaral conta no programa do espetáculo que o desafio de Autran levou-a a decidir-se por um assunto com a qual se dá muito bem - os sentimentos. Lembrou-se de um casal de amigos homossexuais que depois de mais de 20 anos juntos, separaram-se. A decisão, desconcertante, partiu daquele que era o mais devotado, o que obedecia, se curvava ao outro.
A autora pergunta qual a diferença entre um casal homossexual e heterossexual? Nenhuma, ela mesma responde. A maior parte dos casamentos, sejam eles quais forem, acaba na vala comum do ressentimento, é permeada pelos mesmos receios, inseguranças, expectativas e desapontamentos.
Nada além do normal, continua Maria Adelaide, pois todos pertencemos à espécie humana que, para compensar suas misérias, aprendeu a sonhar e idealizar e descobriu que através desses recursos é possível reinventar a vida à imagem do seu desejo e da sua esperança.
ArtimanhasA paixão e suas consequências correm soltas na comédia Uma Coisa Muito Louca!, em cartaz no Teatro Fernanda Montenegro. Estrelada por Luciana Braga e Cláudio Fontoura, a peça traz nas idas e vindas a marca do autor, Flávio de Souza.
Comédia romântica, segundo a definição, parte de algo comum: o envolvimento de um homem e uma mulher. Ele (Waldo), desempregado, e ela (Moira), pesquisadora de mercado, têm seus destinos cruzados numa dessas armadilhas da vida. Começa aí, de um interesse quase epidérmico, uma história que vai atravessar a paquera, o namoro mais sério, noivado e casamento.
A história dos dois é contada de uma forma diferente: através da interferência constante das consciências das duas personagens. Isso faz com que as cenas se modifiquem constantemente. Um jogo, dentro das regras da conquista e da reconquista.
Quatro são doisLuciana Braga e Claudio Fontana têm suas consciências materializadas ao público nas interpretações de Letícia Teixeira e Romis Ferreira. Uma coisa muito louca, imaginou o dramaturgo Flávio de Souza, quando já tinha escrito umas 20 páginas da peça. Ele batucava nos teclados a pedido de Luciana e Claudio, mas não levou fé naquilo a que estava empenhado.
Chamou os atores para uma primeira leitura de um texto incompleto, esperando a cara de frustração dos artistas, quando ouviu o contrário. Eles gostaram demais do trabalho, e interpretando os personagens aquilo ficou melhor ainda. Descobri que aquela coisa muito louca era uma coisa legal, comentou.
Vinha de encontro ao que ele queria há tempos, ou seja contar uma história cujo miolo fosse essa coisa muito louca que eu achava que só malucos como eu sentiam, e que eu fui descobrindo que todo mundo, ou pelo menos muita gente também sente, que é a vontade de voltar no tempo para consertar uma situação, de dizer o que não se teve coragem ou a presença de espírito de dizer.
Devidamente explicado pelo autor, com direção de Enrique Diaz, a comédia está no momento correndo o país.


