No final dos anos 70, Carlos vai ao cinema encontrar com Júlia. A partir de um encontro banal, a cineasta Sandra Werneck, a mesma de ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’, traça três possibilidades de destino para um mesmo personagem. Esse é o enredo de ‘‘Amores Possíveis’’, novo filme da cineasta. Apesar de ainda não ter definido o protagonista, a atriz já tem confirmada Andréa Beltrão no papel de Júlia. ‘‘É uma brincadeira lógica e matemática sobre as possíveis trajetórias de um sujeito’’, explica Sandra. O filme, que começa a ser rodado ainda esse semestre, deve estrear até o final do ano.
A idéia de explorar várias versões a partir de um acontecimento surgiu através de uma conversa com Maya Werneck, filha da cineasta, que também trabalha com cinema. Decidida a filmar a história, ou melhor, as três histórias, Sandra recrutou os parceiros Paulo Halm - roteirista de ‘‘A Guerra de Canudos’’ e ‘‘O Barão de Mauᒒ, dirigido por Sérgio Rezende - e Domingos de Oliveira, diretor de ‘‘Amores’’. ‘‘Chegamos a um nível de sofisticação incrível. Eles decodificam bem as minhas idéias’’, acredita a cineasta.
Juntamente com José Roberto Torero, Halm escreveu o roteiro de ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’. Lançado em 1997, o filme foi um dos primeiros da nova safra de produções nacionais a arrebatar um bom número de espectadores. Quase 500 mil pessoas assistiram à devassa da relação amorosa de um casal, vivido por Andréa Beltrão e Daniel Dantas, do começo ao final do relacionamento. ‘‘Foi uma bela performance’’, avalia a diretora. Ela confessa que se surpreendeu com o público de ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’. Acreditava que o público-alvo estivesse na faixa dos 30 aos 50 anos e ficou surpresa ao notar que muitos jovens assistiram ao filme. ‘‘Eles nunca viveram boa parte das situações retratadas’’, considera. E completa: ‘‘Mas quando a gente conta uma história simples e verdadeira, não há como não se identificar.’’
Assim como fez em ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’, Sandra também pretende explorar os sentimentos humanos em ‘‘Amores Possíveis’’. Com a produção de Eva Mariani - produtora de ‘‘Amores’’ e de ‘‘Um Copo de Cólera’’, de Aluísio Abranches - o filme retrata as diferentes relações vividas entre os protagonistas. ‘‘Mas é outro tipo de amor. É uma trilogia mais madura’’, esclarece. Na primeira história, Carlos se casa com outra mulher e reencontra Júlia, anos mais tarde. Na segunda, ele se casa com o amor da juventude mas acaba se apaixonando por um homem e, na última, vive como um garotão sempre idealizando a mulher perfeita. Para cada uma delas, a cineasta vai imprimir um estilo dramatúrgico diferente. Enquanto a primeira vai ser abordada de forma séria, a do meio mistura drama e excentricidade e a terceira vai ter um tom mais cômico.
Como pano de fundo, a história traz, assim como o filme anterior da cineasta, locações escolhidas em diversos bairros do Rio de Janeiro. ‘‘Mas não quero mostrar um cartão-postal’’, antecipa. Para a missão, Sandra escolheu o fotógrafo Walter Carvalho e o diretor de arte Claudio Amaral Peixoto. A cineasta também pretende investir na trilha sonora. Para cada uma das histórias ela vai escolher um estilo musical. A mais séria, por exemplo, vai ser embalada por músicas clássicas, de origem brasileira. ‘‘Música e cinema fazem uma parceria importante’’, acredita.
Com um orçamento em torno de US$ 2 milhões, o filme amarga agora a alta do dólar. Sandra explica que, como os produtos utilizados nas filmagens são quase todos importados, os preços aumentaram em pelo menos 30%. Para ela, mais difícil que captar recursos para um filme é conseguir salas de projeção para produções nacionais no Brasil. ‘‘O filme brasileiro tem de aparecer’’, ressalta.

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