DivulgaçãoOlivier Martinez e Juliette Binoche, em cena do filme de Jean-Paul RappeneauBem-aventurados os que usufruem as delícias do Eurochannel, canal de tevê paga que veicula a produção cinematográfica francesa em versões originais com legendas e mescla em sua programação anual centenas de clássicos e títulos mais recentes. Por motivos não explicados (custo de pacote ?, satélite enviezado ?, boicote dos ‘‘canais de Hollywood’’ ?, programação elitizada em demasia para determinadas regiões e suas respectivas hordas de telespectadores ? - tudo é possível), boa parte da doméstica platéia paranaense ainda não tem acesso a uma multifacetada versão anos 90 da resistência francesa. Resistência não mais contra inimigos do Eixo, mas contra aliados antigos em nome da sobrevivência cultural. Mais ou menos como Asterix e Obelix combatendo sozinhos a barbárie de ponta dos efeitos especiais. E como sempre só com a decisiva ajuda da poção mágica. Isto é, pouco dinheiro, muito talento e originalidade.
É muito provável, pelo ano de realização (94) e pelo data de lançamento na França (20 de setembro de 95), que ‘‘O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras’’ (Le Hussard Sur le Toit) já tenha sido exibido pelo Eurochannel. O filme chegou há pouco às locadoras e por uma série de razões pode até virar uma espécie de video-cult, se descoberto por um certo segmento de locatários.
Paixão e a miséria Por um desses caprichos, o título adotado no Brasil pela Mundial Filmes resulta mais sonoro e mais lírico que o original, literalmente ‘‘O Hussardo sobre o Telhado’’. Mas isso não importa muito. O melhor é saber que se está diante de uma bela história de amor.
O ano é 1832. Uma epidemia de cólera dizima a população da Provence, sul da França. Angelo Pardi, jovem coronel italiano dos hussardos, chega à região perseguido por conspiradores austríacos. Ele também vem preparar a revolução contra os invasores da Itália. Na cidade já pestilenta de Manosque, ele se refugia da multidão enfurecida num telhado. E sob este telhado há uma casa, e nesta casa ele conhece a burguesa Pauline de Théus. Ela o abriga e alimenta, ele parte. Em pouco tempo se encontram novamente por acaso. A partir daí seguem juntos à procura do marido de Pauline.
Baseado em ‘‘Le Hussard sur le Toit’’, romance de Jean Giono publicado em 1951 e muito popular na França, e adaptado por Jean-Claude Carriere e Nina Companeez, o filme de Jean-Paul Rappeneau é um dos mais poéticos e sensuais realizados na França nos últimos tempos. Rappeneau sabe o que faz. Foi roteirista para Louis Malle. Tem dois grandes filmes no currículo: ‘‘O Selvagem’’, de 76, com Yves Montand e Catherine Deneuve, e ‘‘Cyrano de Bergerac’’, de 90, com Depardieu. O cineasta tem em seus elencos talvez o trunfo mais importante: em ‘‘O Cavaleiro...’’ a dupla do título é vivida pela atriz Juliette Binoche e pelo ator-revelação Olivier Martinez . Binoche compõe um personagem intenso mas ao mesmo tempo leve, expressão sempre iluminada e determinação excepcional; Martinez é mistura de energia e hesitação, atrevimento e pudor.
Em meio à morte que está em toda parte, esta mulher leal que não desiste um só minuto de encontrar o marido e este homem a ela mandado pelos sortilégios transpiram uma inadmissível paixão, repleta de olhares, de cargas de emoção e de sufocante tensão erótica.
Há belas sequências, neste grande, colorido afresco que se propõe contar, e bem, uma história de ironia e compaixão. Uma história romanesca que é também sobre a luta entre a morte e a beleza, entre a morte e o amor que não ousa dizer seu nome, entre a vida e a morte.
Não foi por mero capricho que René Clement, os irmãos Taviani e até Bu¤uel pretenderam incursionar por este universo em que amor e dor convivem em preciosa rima, emoldurados pela pureza dos grandes espaços provençais.

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