O amor nos braços da memória
'Elegia do Irmão', novo romance de João Anzanello Carrascoza, realiza um delicado inventário sobre a irmandade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de abril de 2019
'Elegia do Irmão', novo romance de João Anzanello Carrascoza, realiza um delicado inventário sobre a irmandade
Marcos Losnak 
A irmandade pode ser um sol imaterial que só percebemos quando se transforma em lua. Apenas na escuridão as sombras podem oferecer o contorno que o sol possui antes de desaparecer.
Para uma pessoa ter a real compreensão da irmandade, talvez seja necessário que a irmandade deixe de ser realidade para se tornar lembrança. A memória pode construir a irmandade em sua superior dimensão.
Em seu novo romance, “Elegia de Irmão”, o escritor paulista João Anzanello Carrrascoza converte a irmandade em um grande inventário de sentimentos sempre em transição entre sombras e luminosidades.

Lançado pela editora Alfaguara, a obra traz a história de Mara contada através das lembranças do irmão, o narrador. Diagnosticada com uma doença incurável, Mara possui pouco tempo de vida imersa num tratamento sem grandes esperanças. O irmão então resolve permanecer ao lado da irmã o pequeno tempo que resta.
Esse tempo se revela um amplo inventário das memórias de infância e de juventude, período em que a irmandade estruturou laços e raízes. Lembranças de eventos cotidianos capazes de revelar a personalidade de cada um dos irmãos: “Eu e ela, atiçados de repente por algum assunto, mais importante para nós que o movimento complexo da máquina do mundo, tagarelando sem parar, a minha fala atravessando a dela, e a dela a minha; eu e minha irmã numa cena comum, dois seres nos trechos iniciais de sua marcha para o nada, uma cena que só meus olhos podem redesenhar; eu e minha irmã seguindo para ser aqueles que nos tornamos, aquele que ainda sou, aquela que ela já não é mais.”
“Elegia de Irmão” é uma história de amor entre irmãos. Também uma história de perda, uma narrativa de enfrentamento da morte. O resgate da memória diante da possibilidade do fim. Mas não há lamentações ou lágrimas, há a celebração da vida.
Dividido em duas partes, num primeiro momento a narrativa está ambientada enquanto Mara ainda vive. Num segundo momento, a narrativa está situada após sua morte. Nesse segundo momento, o irmão precisa redimensionar sua existência para se relacionar com a perda da maneira mais lúcida possível.
Esse redimensionamento utiliza como principal instrumento a própria memória. Quando uma pessoa deixa de existir, as lembranças ocupam seu lugar no mundo: “A dor recordada é tão forte quanto a dor do instante, por isso é inalcançável verbalizá-la”. Ou seja: “Sofrimento não se doa, nem se recebe, feito transfusão. A carne da consciência rejeita o sangue que não é seu. Feridas tem dono.”
O narrador esbarra na impossibilidade das palavras decodificarem tudo o que acontece nas emoções e sentimentos do ser humano. E, diante dessa incapacidade, resta circundar o sentido com sentidos próximos. Diante da impossibilidade das palavras chegarem ao âmago das coisas, resta a opção de dar voltas no assunto na tentativa de cercá-lo para tentar defini-lo. Algo que remete às ideias do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889 – 1851): as palavras possuem braços curtos para abraçar todas as coisas.
Nascido em 1962 e autor de mais de 30 livros, João Anzanello Carrascoza desenvolveu uma literatura onde a sensibilidade e as sutilezas ocupam lugar de destaque. Narrativas onde os detalhes valem mais do que os grandes acontecimentos. Narrativas onde as experiências da vida não estão nos grandes feitos humanos ou nos grandes fatos do mundo, mas nos acontecimentos mais íntimos, nas experiências mais particulares e emocionais.

Serviço:
“Elegia do Irmão”
Autor – João Anzanello Carrascoza
Editora – Alfaguara
Páginas – 152
Quanto – R$ 49,90


