O AMOR E O HORROR EM CRISE
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de março de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
O que fazer diante de um clássico vampiro que revela à secular bem-amada que sua verdadeira identidade é...Judas Iscariotes - sim, ele mesmo, o apóstolo dos 30 dinheiros ?
E o que dizer na presença de uma nada original executiva casamenteira que cobiça o noivo da mulher que encomendou a festa? Estes, em linhas gerais, os argumentos das principais estréias que circulam a partir de hoje nas salas de Curitiba, Londrina e Maringá (veja a programação de cinema na página 4).
Em Drácula 2000, o diretor Patrick Lussier e o roteirista Joel Soisson podem se orgulhar de um feito inédito: levaram a legenda cinematográfica do Conde Drácula à beira do ridículo. Com produção executiva do cultuado mas nem sempre confiável Wes Craven, o filme transporta o vampiro para o ano 2000 em New Orleans. Lá, em plena era virtual e envolto em fumaça high-tech, ele busca sua alma gêmea, a jovem Mary, cuja paternidade é atribuída ao Dr. Van Helsing, o mais teimoso e razoavelmente bem sucedido caçador de vampiros em toda a história da lenda. Talvez insatisfeito com o enferrujado carisma de Van Helsing (Christopher Plummer, o outrora capitão von Trapp de A Noviça Rebelde) , o roteiro vai logo liquidando o personagem, numa atrevida demonstração de pretensa autonomia em relação aos cânones da vampirologia. Mas o inusitado supremo está reservado para o final, quando o filme se encaminha para o embate entre Bem e Mal. Num flash back para figurar em antologia de sandices em celulóide, Drácula narra a Mary sua verdadeira origem: há dois mil anos, após trair Cristo, Judas se apressa a aliviar a atormentada consciência preparando o auto-enforcamento. Mas a corda se rompe no momento exato e a partir daí torna-se um maldito morto-vivo a se alimentar da raça humana.
Em dezenas de filmes centralizados em Drácula, algumas liberdades sempre foram tomadas, mas nunca em escala tão radical. O respeito à genealogia, aos códigos e detalhes da novela-fonte de Bram Stocker sempre foi uma constante, até porque esses mesmos ingredientes continuam inesgotáveis se trabalhados com um mínimo de talento. O que, decididamente, não é o caso deste Drácula 2000.
Do horror à comédia, o panorama persiste nebuloso. A comédia romântica
O Casamento dos Meus Sonhos tenta a sofisticação. Não consegue. Tenta o conto de fadas: idem. Para onde quer que o estreante Adam Resnick aponte sua câmera nada dá certo. O equívoco parece ser a matéria-prima deste filme dispensável que já foi feito outras vezes, em outras épocas. Os fãs de carteirinha de Jennifer Lopez podem até gostar deste personagem, o que não altera em nada a má qualidade - do filme, não de Jennifer, uma atriz que aqui até se esforça para fugir de seus papéis de durante, na frente e atrás da câmaras. Ela é Mary Fiore, a mais imaginativa e dedicada planejadora de casamentos de São Francisco. Workaholic e consequentemetne solitária, não tem vida afetiva própria. Até que um acidente de trânsito a coloca nos braços do pediatra Steve Edison (Matthew McConaughey).
A premissa de O Casamento dos Meus Sonhos - duas pessoas se apaixonam de estalo e de maneira nobre evitam magoar terceiros - foi tema de muitos filmes das décadas de 30 e 40. É deplorável que o filme não proceda com a mesma desenvoltura e o mesmo charme de seus antepassados. Muito menos existe química autêntica entre Lopez e Matthew nesta esquálida comédia onde falta de energia e diálogos medíocres pontificam.


