São Paulo, 13 (AE) - Se o prédio do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), reaberto depois de uma completa reforma, ganhou uma cara nova, rejuvenesceu, a programação não ficou para trás. Desde o ano passado, a Sala Repertório foi ocupada em caráter permanente pelo bem-humorado grupo Parlapatões, Patifes e Paspalhões, que esta semana reestréia no local quatro peças de seu repertório: "Nada de Novo", "Poemas Fesceninos", "[email protected]" e "De cá para lá, de lá para cá".
A partir de amanhã (14), os Parlapatões ganham a companhia do dramaturgo e diretor Leo Lama, cuja criação artística também tem como público-alvo o jovem urbano, do tipo que nos últimos anos tem preferido assistir a shows de rock do que a espetáculos teatrais. Autor de "Dores de Amores" - peça que ficou três anos em cartaz com sucesso de público com Malu Mader e Taumaturgo Ferreira no elenco e atualmente está sendo apresentada na Argentina -, Lama vai ocupar também em caráter permanente a Sala Arte com seu repertório.
Amanhã, estréia "O Amor de Madalena por Jesus", escrita num fluxo de pensamento em novembro, uma semana depois da morte de seu pai, o dramaturgo Plínio Marcos. Na quarta-feira
reestréia na mesma sala "Baudelaire - O Pai do Rock", peça criada no início do ano passado, na qual ele prestava, pela primeira vez no palco, uma homenagem ao pai. Com texto, direção e figurinos de Lama, "O Amor" é inspirado na personagem dos "Evangelhos", Maria Madalena, que teria alimentado um amor platônico por Jesus.
"Muitos a confundem com a prostituta que Jesus salvou do apedrejamento, o que não é verdade", afirma o autor que realizou uma pesquisa em torno da personagem, ponto de partida de sua história. "Quando a peça tem início, Madalena está em busca do seu grande amor, a quem ela vinha seguindo, mas perdeu de vista", antecipa. A partir daí, Lama constrói seu espetáculo com muita liberdade, para falar basicamente da grande ausência de espiritualidade no mundo contemporâneo. "Madalena é uma mulher que ama sem pedir nada em troca, uma personagem simbólica
rara neste tempo em qual todas as relações estão contaminadas pelo toma lá, dá cá", diz Lama.
"É difícil falar sobre a peça, porque as palavras estão desgastadas", comenta. "Se eu falo espiritualidade, por exemplo, alguns podem associar a padre Marcelo ou Paulo Coelho, o oposto do que está no palco; para ser bem entendido, antes seria preciso fazer uma limpeza nas palavras". Embora o espetáculo seja repleto de signos, o dramaturgo garante que pode ser facilmente acompanhado por qualquer tipo de público. "É quase uma história policial, uma investigação sobre o paradeiro de um desaparecido", afirma. "Quem não decodificar nenhum dos símbolos, ainda assim vai acompanhar uma história de investigação e amor".
Embora tenha sido escrita sob a emoção da morte do pai, a peça não faz referência direta ao autor de "Barrela" e "Navalha na Carne" e Lama não teve a intenção de homenageá-lo, como já havia feito em "Baudelaire". "Se alguma comparação pode ser feita, ela está no fato de, assim como Madalena, eu estar vivendo a perda de uma pessoa a quem eu amava", diz Lama. "Naquele momento eu sabia que não poderia mais tocá-lo, não mais receberia nada dele, mas continuaria amando ainda assim: uma amor incondicional, como o de Maria Madalena".
Em "Baudelaire - O Pai do Rock", Lama presta uma homenagem não só a Plínio Marcos, mas a todos os artistas malditos, aqueles que nunca souberam separar vida e arte. A peça retrata a vida do poeta francês Charles Baudelaire de uma forma muito singular: Lama utiliza como matéria-prima lembranças e delírios do poeta em seu leito de morte, o que permite várias associações.
Raul Seixas, Kurt Cobain, Cazuza e Renato Russo são algumas dessas associações, feitas por intermédio da trilha sonora. Porém, o momento mais emocionante é sem dúvida a homenagem a Plínio Marcos. "Ele gostava muito da cena de Baudelaire vendendo seus livros na rua". (B.N.) Serviço - "O Amor de Madalena por Jesus". Texto e direção de Leo Lama. Duração: 1h15. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20 horas. R$ 5,00. TBC - Sala Arte. Rua Major Diogo, 315, tel. 3105-1397. Até 27/2

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