De maneira geral, as grandes coisas são fáceis de serem distinguidas das pequenas coisas. Na lista das pequenas podemos encontrar coisas como uma formiga arrastando uma migalha de pão, recolher um papel de bala do chão, salvar um grilo levado pela enxurrada... Na listas das grandes, podemos pensar em coisas como edifícios de 30 andares, atravessar o oceano Atlântico a nado, dar a volta ao mundo em oitenta minutos...
Nas dobras da vida, mais especificamente nos sentimentos humanos, as categorias das grandes e das pequenas coisas são capazes de trocar de lado sem maiores pudores, como se atravessassem um rio para tomar sol na outra margem. E a memória, um lençol branco estendido ao vento, passa a registrar a intensidade de cada travessia e as variações do calor do sol.
As pequenas coisas que atravessam o rio e assumem a categoria de grandes marcam presença no livro ‘‘O Deus das Pequenas Coisas’’ da escritora indiana Arundhatu Roy. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o romance mostra como as denominadas pequenas coisas se acumulam, uma sobre as outras, para formarem as grandes. Paralelamente revela como as denominadas grandes coisas podem ser totalmente desprovidas de sentido e importância.
‘‘O Deus das Pequenas Coisas’’ narra a história dos gêmeos bivitelinos Estha e Rahel e as tragédias que abateram, um por um, todos os membros da família. Tudo começa - ou termina - com a volta de Rahel, uma mulher de 30 anos, à casa em que passou a infância para reencontrar o irmão Estha após 23 anos. Separados quando tinham sete anos de idade, os gêmeos eram praticamente uma única pessoa, sempre utilizavam ‘‘nós’’ em vez de ‘‘eu’’. O reencontro torna-se possível através da morte ou fuga dos membros da família e suas respectivas tragédias pessoais: ‘‘Dois atores aprisionados numa peça recôndita, sem nenhum indício de trama ou narrativa. Tropeçando em seus papéis, cuidando da tristeza de outro. Sofrendo o sofrimento de outro.’’
Separados depois da morte acidental de um prima e abalados por terem sidos forçados a mentir para condenar um homem inocente, Estha e Rahel passam por um processo que, para continuarem vivendo, precisam habitar seus interiores com alguma coisa. Rahel escolhe instalar um vazio dentro de si, deixar sua existência à deriva. Estha opta por afogar-se no silêncio, abolindo o uso das palavras numa tentativa de alcançar a quietude: ‘‘Quando a quietude chegou, foi para ficar e expandir-se dentro de Estha. Brotou de sua cabeça e o envolveu com braços pantanosos. Embalando-o ao ritmo de uma pulsação antiga fetal. Projetou seus tentáculos com ventosas furtivas deslizando pelo interior do crânio, aspirando os picos e depressões de suas memórias, deslocando velhas frases, que surrupiava da ponta da língua dele. Despiu seus pensamentos das palavras que os descreviam deixando-os esfolados, nus. Indizíveis. Entorpecidos. E para um observador, portanto, talvez quase ausentes. Lentamente, ao longo dos anos, Estha foi se retirando do mundo. Acostumou-se ao inquieto polvo que vivia dentro dele e esguichava uma tinta tranquilizante sobre o passado. Gradualmente, a razão de seu silêncio foi se escondendo, sepultada no fundo das dobras serenas do fato em si.’’
Fazendo uso de elementos autobiográfico, Arundhati Roy - que antes de se dedicar à literatura trabalhou como atriz e roteirista do cinema indiano - coloca como pano de fundo os acontecimentos sociais e políticos da Índia no final dos anos 60, quando o movimento sindicalista de bases marxistas começa a ganhar forma.
Apesar de ser seu romance de estréia, a autora realiza uma surpreendente narrativa em que intercala passado e presente. Coloca uma delicada névoa nos acontecimentos para em seguida, no decorrer das páginas, instaurar um pequeno vento para dissipá-la. Despe a tragédia familiar para poder respirar ares mais frescos nem que seja para admitir que uma pessoa viva não pode sentir a morte, apenas o fim do viver: ‘‘Às vezes a memória da morte vive por muito mais tempo que a memória da vida que ela roubou.’’
Um oculto e impossível amor é o sal do romance. Ammu, mãe dos gêmeos, separada do marido alcoólatra, nutre uma paixão por Velutha, um dos empregados da fábrica da família. Uma amor proibido, pois Velutha pertence a uma casta inferior. Este amor impossível devido a estratificação das castas indianas levará um dos amantes à morte, outro à loucura. Arundhati focaliza a História ditando as normas do amor: ‘‘O homem parado na sombra das seringueiras, com moedas de sol dançando no corpo, carregando a filha dela nos braços, levantou os olhos e viu o olhar de Ammu. A História foi pega no contrapé, desguardada. Descascada como a cobra descasca a pele velha. Suas marcas, cicatrizes, suas feridas de velhas guerras e os dias de andar para trás sumiram. E nesse vazio, a História deixou uma aura, palpável, cintilante, tão visível quanto a água do rio ou o sol no céu. Tão sensível quanto os calos de um dia quente, ou o puxão de um peixe na linha retesada. Tão óbvia que ninguém notou.’’
Como a realidade é sempre mais sólida do que aparenta ser, atropela tudo que encontrar pela frente: ‘‘Demônios da História surgiram para reclamá-los. Para tornar a envolvê-los com suas peles cheias de cicatrizes e arrastá-los de volta para o lugar a que pertenciam de fato. Onde as Leis do Amor determinavam quem devia ser amado. E como. E quanto.’’
‘‘O Deus das Pequenas Coisas’’ é um relato melancólico vestido com os tecidos da angústia. Uma vez gravada na pele das pessoas, sejam adultos ou crianças, a dor ocupa um espaço cativo em suas mentes que ecoa em todos o corpo, em todos os sentimentos.
Arundhati faz uso da metáfora do eterno retorno, o amor causando dor e a dor impulsionando o amor. Os gêmeos Estha e Rahel conheceram a felicidade unidos no interior do útero da mãe. Separados pelo parto, passam a infância procurando construir um útero no mundo externo, mas o mundo não admite este tipo de refúgio e procura destruir qualquer tentativa neste sentido. Depois de adultos, com seus corações inchados pelo vazio, resolvem voltar às origens entregando-se um ao outro. O que seria um possibilidade de felicidade, torna-se um germe do sofrimento. E mais uma vez as Leis do Amor irão exigir um sofrimento duplicado, triplicado em direção ao infinito.
Utilizando referências da arte kathakali, a narradora de ‘‘O Deus das Pequenas Coisas’’ parece dizer que viver é estar consciente das possibilidade de dores, angústias, amores. As chamadas surpresas, ou tragédias, da existência são coisas que passaram despercebidas e batem o pé para serem sentidas: ‘‘As Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo. Aquelas em que você pode entrar em qualquer parte e habitar confortavelmente. Elas não enganam você com truques e finais emocionantes. Elas não surpreendem você com o imprevisível. Elas são tão familiares como a casa em que se vive. Ou como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam, mas, mesmo assim, você escuta como se não soubesse. Da mesma forma que apesar de saber que um dia vai morrer, você vive como se não fosse.’’
A bela história narrada por Arundhati, com forte percepção feminina, poderia ser ambientada em qualquer outro país do mundo. Trabalha com sentimentos universais. As regras sociais esmagando os sentimentos infantis e adultos, e as desgraças caindo sobre as cabeças sem motivo aparente. Na realidade, os motivos não são motivos, são motores que impulsionam a vida para frente, ou para trás.
•O Deus das Pequenas Coisas - de Arundhati Roy, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 342 páginas, R$ 28,00/Livraria Rosa do Povo (fone 043/321-5691).

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