"O Amigo do Defunto" faz um retrato inteligente das mudanças na antiga União Soviética
São Paulo, 22 (AE) - Quem viu Junk Mail e gostou do filme norueguês de Pal Sleutane na Mostra Internacional de Cinema do ano passado não pode perder "O Amigo do Defunto", que estréia amanhã (23). O trabalho de Viatcheslav Krichtofovitch é atravessado pelo mesmo clima surreal do outro filme. Só não consegue ser tão divertido. Um pouco mais de humor (assumido) faria bem à narrativa.
Mas ela prende a atenção e oferece um retrato inteligente das mudanças ocorridas na antiga União Soviética. Como diz um personagem lá pelas tantas, a amizade acabou na Rússia. Persistem somente relações de negócios. O desencanto com os rumos da sociedade russa, na sua passagem de socialismo para capitalismo selvagem, é permanente.
Alexandre Lazarev faz o protagonista. Quando o filme começa, vive de fazer alguns bicos como tradutor. Procura emprego, mas não consegue. A mulher abandona-o para viver com outro homem. O protagonista chega ao fundo do poço. Contrata um profissional para matá-lo. Depois, arrepende-se, mas é difícil reverter o quadro. A solução é contratar outro assassino para liquidar o assassino.
A coisa não pára por aí. Eliminado o profissional, o personagem, que se chama Anatoli, envolve-se com a viúva. Como em Junk Mail, muitas vezes o espectador tem a sensação de que personagens e trama seguem rumos diversos. É como se o filme fosse invadido por personagens de outros filmes. A defasagem é intrigante.
Krichtofovitch nasceu em 1947 em Kiev, na Ucrânia. Trabalha sempre na sua cidade, nos Estúdios Dovjenko, que levam o nome do genial criador de "Terra", uma obra-prima do período de ouro da cinematografia soviética. Krichtofovitch já é conhecido do público da mostra. Além de "O Amigo do Defunto", que passou na mostra de 1997, é diretor de "A Costela de Adão"
que foi destaque na 17.ª Mostra, em 1993. Seu filme foi feito em co-produção com a França, que tem sido parceira dos mais importantes cineastas da URSS após o esfacelamento do império soviético.
O filme é uma distribuição de Filmes da Mostra. A distribuidora de Leon Cakoff tem outra pérola nos cinemas da cidade: é o japonês "Maborosi, a Luz da Ilusão", de Hirokazu Kore-Eda, em cartaz na Sala Cinemateca. (L.C.M.)





