O ameaçado mundo selvagem
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de julho de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Mesmo com os três porquinhos - símbolos perenes do animado imaginário de todas as gerações - no momento transformados em vilões por conta desta ingrata pandemia, está oficialmente aberta nos cinemas a temporada de caça à criançada em férias e, claro, aos sempre prestativos pais e mães com seu bolso providencial, sua maravilhosa paciência e sua cumplicidade hoje em dia nada dissimulada. ''Transformers'' vai emplacando segunda semana sem problemas, destinado muito mais ao público infantil. ''A Era do Gelo'' volta na terceira aventura com aquela divertida e bem conhecida turma de mamutes, dentes-de-sabre, preguiças e agora com ênfase no trapalhão esquilo jurássico, já alçado à condição de clássico da animação contemporânea.
Mas a partir de hoje, numa das telas grandes da cidade, surge outro tipo de apelo, digamos, mais responsável, embora não inferior como entretenimento. Chega ao circuito local (veja a programação de cinema na página 2) o documentário ''Terra'', poderosa e cativante travessia visual através do planeta e das quatro estações do ano. O filme, realizado pela mesma equipe da BBC que em 2007 produziu a minissérie ''Planeta Azul'' para veiculação no canal Discovery, teve lançamento mundial em 22 de abril, Dia Mundial da Terra.
''Terra'', dirigido por Jean-François Camilleri e Alastair Fothergill, inaugura com evidente dignidade o selo Disneynature. A produção capta a essência do mundo selvagem com a mais sofisticada tecnologia e consegue ainda a proeza de construir um épico baseado em processos naturais que, na verdade, são indiferentes às epopéias. A galeria de belas e comoventes imagens, extremamente limpas, mas também rebuscadas, transportam o espectador a uma rara, primitiva, libertária solidão - não há qualquer presença humana nos 96 minutos que duram a jornada.
O argumento parte do Pólo Norte, na época do degelo, e vem em direção ao sul. A narrativa se ocupa das ''histórias'' de três famílias: ursos polares, elefantes e baleias. Estas tramas não são forçadas, mas delineadas num preciso trabalho de montagem. A dramaturgia aqui é a natural: necessidade de conseguir comida, buscar a qualquer custo a sobrevivência dos filhotes e evitar a qualquer preço os predadores - aliás injustamente percebidos pelos humanos como vilões da história. Cada cena de perseguição termina no instante em que o caçador alcança seu objetivo: antes do sangue.
Como a natureza é doutora sem phd, mestra sem defesa de tese e pós-graduada tão somente por sua própria natureza, há um detalhe óbvio que, embora, não enfático, marca profundamente as diferenças entre condutas humanas e animais. O urso polar, sozinho, isolado, faminto, esgotado, com o qual já estabelecemos empatia por sua condição paterna, ataca um grupo de elefantes marinhos para conseguir alimento. A manada se defende como pode, com garras e dentadas, até que o urso cai rendido e recolhe moribundo. Os elefantes, que com suas presas poderiam dilacerar e matar o urso, somente o rodeiam: ao contrário da espécie humana, não conhecem o conceito de vingança.
Apesar da evidente e eficaz disposição ecologista, ''Terra'' não é pomposo e nem satura com dados ameaçadores. O filme rompe as fronteiras estéticas do rigoroso documentário clássico, estilo National Geografic, e alcança níveis quase hipnóticos.
Para além da violência natural e do darwinismo, que pode entristecer um público menorzinho (a classificação etária, no entanto, é para todas as idades), ''Terra'' deslumbra com uma parada sem fim de animais selvagens flagrados com tal precisão que parecem criar coreografias perfeitas, ensaiadas infinitamente.


