O que se pode fazer num único dia? Para Suzana Flag, ou melhor, Nelson Rodrigues, esse limite parece não existir. E é esse desrespeito incontido ao constrangimento que a passagem do tempo impõe à vida cotidiana que dá fôlego a uma obra inicialmente escrita e publicada como folhetim.
Em ‘‘Meu Destino É Pecar’’ (lançamento Ediouro), primeira obra de Suzana - personagem criada pelo dramaturgo para assinar seus folhetins - esse excesso acaba por destacar pensamentos e desejos, conscientes ou não. A impossível sequência de fatos torna-se, paradoxalmente, um apego à realidade - afinal, o pensar também faz parte dela (no limite, é ela).
O romance, que ajudou a dobrar as vendas de ‘‘O Jornal’’, parte de uma história não muito original. Um irmão inveja o outro, ou seja, acabamos de ser apresentados a Caim e Abel. Em torno deles, gravitará uma coleção de mulheres. Elas agem, mas apenas em função dos homens. Paulo, o manco, é vítima da beleza irresistível de Maurício, cuja lista de conquistas inclui as mulheres do primeiro e também as irmãs delas. Daí a ciumeira, daí o ódio fraterno, daí as ameaças de morte (que exigiriam a contratação de uma auditoria independente para serem contabilizadas).
A trama tem início momentos depois do casamento de Lena com Paulo. Estão partindo para a lua-de-mel, na fazenda da família. Ela se recusa a beijá-lo. Tenta fugir, passa mal, se machuca, rasga as meias. Ainda nesse dia, a sogra a avisará da beleza inacreditável de Maurício.
Temos a proibição que, claro, terá de ser violada. Estamos no segundo capítulo, e Lena já se apaixonou pelo cunhado. E, mesmo que o ritmo industrial de produção exigido pelo jornal resulte em algumas falhas narrativas (pequenas confusões entre ações de personagens, por exemplo), o leitor, nesse ponto, já está apresentado a um estilo que se repetirá em ‘‘O Casamento’’, obra já assinada por Nelson, e em muitas de suas obras para o teatro: o clímax constante.
Novas proibições e violações se apresentam dentro dos próprios momentos de tensão, sem que haja um relaxamento na sequência de acontecimentos. Muito provavelmente, ao fim das 640 páginas, o leitor se lembrará de atos e diálogos à granel, mas de apenas algumas pitadas de descrições. É por meio do que as personagens pensam e não dizem, prometem e não cumprem, ameaçam e recuam que a trama se desenrola. E gera uma força muito maior que a vontade individual de Paulo, Lena, Maurício etc. Assim, Lena não quer casar no civil, mas não consegue evitar. Quer dizer não no altar, mas solta um sim. Espera ser beijada por Paulo, mas vira o rosto. E, resistindo a beijar o marido, acaba fazendo com que ele passe a gostar dela. E a resistência dele, com que ela se apaixone por ele. O que se pode dizer de toda essa aparente confusão? Que ‘‘Meu Destino É Pecar’’ é um amontoado de clichês, muito bem sobrepostos, que resultam numa grande obra.
Some-se a isso o fato de que a edição de bolso cai como uma luva para o texto, pois, se não reproduz exatamente o formato do jornal, é muito próximo a ele (pode ser lido no ônibus, metrô, lotação). Vale a pena conferir, até para saber se o final confirma o título ou se o autor (a autora) preferiu contemporizar com seu público, como fazem os novelistas de televisão hoje em dia.Arquivo FolhaNelson Rodrigues: produção para jornal e algumas falhas na históriaHaroldo Ceravolo Sereza
Agência Folha

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