"O Altar do Incenso" traz Marília Pêra e Gracindo Júnior a SP; estréia é amanhã
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 01 (AE) - Com um ótimo e intrigante texto do dramaturgo carioca Wilson Sayão, protagonizada por dois atores de grande talento - Marília Pêra e Gracindo Júnior -, sob direção de Moacir Chaves, diretor do premiado "Sermão da Quarta-Feira de Cinzas", e cenários de Fernando Mello da Costa, estréia amanhã (02) no Teatro Alfa "O Altar do Incenso", espetáculo que tem tudo para figurar entre os melhores da temporada paulistana. No palco, apenas dois personagens: Rebeca e Isaque, casados há 30 anos, moradores de uma vila em Todos os Santos, subúrbio carioca. O ponto de partida da peça é o pânico causado por um estranho ladrão que há um mês vem invandindo casas na vila.
Numa delas, o "louco fantasiado", como ficou conhecido o monstro, massacrou uma família inteira que dormia enquanto na outra apenas amarrou os moradores - unicamente para poder agir - e beijou todos antes de partir. Sem saber o que o destino lhe irá reservar, o casal decide pela constante vigília noturna a fim de não ser surpreendidos durante o sono. "Além da leitura imediata, do assalto mesmo, do perigo e da morte, esse ladrão pode ser uma metáfora do tempo, do destino ou seja lá que nome tenha aquilo que faz a vida premiar uns e massacrar outros sem maiores critérios ou explicações", comenta Wilson Sayão. Medo e desperdício - O destino certamente não premiou esse casal que só acumulou frustrações e nem ao menos filhos tem para transferir planos de realização pessoal. "Será que todo mundo está cansado assim da vida?", pergunta Rebeca, uma personagem que se autodefine como uma lagarta que por algum motivo não virou borboleta. Num primeiro momento, o medo dos personagens é plenamente identificável, o temor concreto do assalto, mas aos poucos a peça ganha outra dimensão.
"Na verdade a peça fala do desperdício de nossas vidas", diz Gracindo. "A gente vive pensando no futuro ou no passado e esquece de viver o presente", diz Marília. "O homem sempre tem medo do desconhecido", diz Gracindo. Por isso procura proteger-se ao máximo - nesse sentido, as trancas instaladas por Isaque nas portas e janelas viram metáfora - até que um dia vem a nostalgia do não vivido. Como soe ocorrer, é preciso um fator externo, nem que seja um louco fantasiado, para que a urgência da vida venha à tona.
"Por mais que a gente fale sobre isso, acaba sempre flagrando-se perdendo tempo e humor com um problema menor, enquanto o tempo está passando", comenta Gracindo. "A grande presunção da humanidade é viver como se não existisse a morte, como se o ser humano fosse eterno", comenta Moacir. Apesar da reflexão que provoca, o tema não ganha ares nostálgicos no palco. "Eu gargalhei muito na primeira leitura da peça", conta Marília. "O texto tem um humor incrível".
O humor surge principalmente da relação do casal, desgastada por 30 anos de convivência e pela diferença de personalidades. "Enquanto ele se tranca inteiro, ela quer voar, quer abrir a porta, arriscar", diz Marília. "Eles são o típico casal atraído um pelo outro justamente por serem muito diferentes, mas o que é motivo de atração é também de brigas, ou seja eles se amam e se odeiam profundamente", diz Gracindo. Ao enfocar dois personagens em compasso de espera, tentando preencher o tempo e refletindo sobre a existência, a peça remete a "Esperando Godot", de Samuel Beckett. "Godot é sem dúvida uma obra-prima, não estou comparando, mas a diferença fundamental é que este texto tem algo inusitado, o fato de tratar de duas pessoas absolutamente comuns, que vivem um cotidiano plenamente reconhecível pelo público", diz Chaves. "Ao mesmo tempo o texto remete a uma dimensão mítica", completa o diretor. "Rebeca é uma mulher comum, mas ela se considera absolutamente singular", diz Marília. "Por isso o texto é fascinante, porque no fim a gente descobre que todo mundo é singular, todo ser humano tem grandeza".
Se o tempo é fator determinante na vida dos personagens, para o autor o relógio do casal chega a ser também um personagem. Eles possuem um grande relógio de parede que anuncia as horas tocando um trecho de "Sonata ao Luar", de Beethoven. "Ele toca a canção no ritmo dos personagens e recebe a atenção de ambos quase como se fosse um filho", adianta. Autor - Além de autor e produtor do espetáculo, Sayão também é o responsável pela trilha sonora, que considera muito importante para envolver o casal tanto em seus momentos de lirismo quanto nos de tensão. Segundo Sayão, os personagens tem uma trajetória de embrutecimento diante da vida. E se eles são singulares, também é bastante singular a trajetória do autor.
Aos 25 anos, Sayão escreveu sua primeira peça, "O Hábito de Ter Dono", premiada no 6.º Concurso Nacional de Dramaturgia do Serviço Nacional do Teatro. Três anos mais tarde, em 1977, o mesmo texto foi premiado num concurso semelhante, promovido pela prefeitura de Santos (SP). Estimulado, passou a escrever intensamente e nos seis anos seguintes escreveu 15 peças e ganhou 12 prêmios em concursos.
Ao contrário do que esperava, durante toda a década de 70 seus textos jamais saíram do papel. Cansado da posição de "famoso dramaturgo inédito", decidiu arregaçar as mangas e batalhar para que fossem encenadas. Em 1980, "desencantou" "Vamos Aguardar Só Mais Esta Aurora", "O Pão e o Circo" e "O Hábito de Ter Dono". Nove anos depois já acumulava nove montagens no currículo, mas percebeu que não bastava levá-las ao palco, seria preciso fazê-lo bem.
Sayão decidiu então assumir também o papel de produtor para poder escolher com quem trabalhar. A estratégia funcionou. Em 1990 ganhou o Prêmio Shell de autor pela peça "Uma Casa Brasileira, com Certeza", dirigida por Amir Haddad. Em 1997, repetiu a façanha, ganhando os Prêmios Shell e Mambembe com "Anônima", dirigida por Aderbal Freire-Filho, com Pedro Paulo Rangel e Gracindo Junior no elenco. Grande expectativa - "O Altar do Incenso" está entre os primeiros textos de Sayão e foi escrito em 1978. "Primeiro eu quero casar todos os meus filhos, para só então fazer outros", brinca o autor. Esta é a primeira vez que uma peça de Sayão será encenada em São Paulo e não é pequena a ansiedade do autor. "Eu detesto expectativas, talvez por isso tenha escrito uma peça como essa, na qual falo também sobre esse sentimento", comenta.
Ele afirma sempre ter tido o desejo de ver seus textos encenados em São Paulo. "De repente chego na cidade com uma montagem dessa envergadura, a expectativa fica enorme e sinto-me às vésperas de uma cirurgia de vida e morte", diz. "Sinto uma angústia muito próxima à dos personagens". Serviço - "O Altar do Incenso". Drama. De Wilson Sayão. Direção de Moacir Chaves. Com Marília Pera e Gracindo Júnior. Duração de 1h15. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. De R$ 20,00 a R$ 40,00. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000.


