O alemão voador
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terça-feira, 21 de maio de 2013
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
O aniversário de 200 anos de nascimento de Richard Wagner (1813-1883) será comemorado hoje em várias partes do mundo. Na Alemanha, o jubileu do compositor que inaugurou uma nova era para a ópera dita um turbilhão de eventos festivos ao longo da temporada.
Em Londrina, a Rádio UEL FM tem homenageado o gênio da música executando suas peças nos programas "Para Gostar de Ópera" e "107 Clássicos", ambos produzidos e apresentados pela professora Fernanda Jiran.
Wagner desperta os mais contraditório sentimentos, exceto a indiferença. O impacto que causou explica-se por suas obras poderosamente emocionais, que oferecem estímulos renovados e expressivos a cada nova geração. Em seu vasto legado, destaca-se a criação da "obra de arte total", expressão cunhada por ele para definir um gênero antecipador que reunia a palavra, a música e elementos visuais tudo concebido pelo próprio compositor.
"Ele criou a ópera sinfônica. Antes dele, a orquestra apenas acompanhava o cantor. Depois dele, canto, orquestra e texto passaram a ter o mesmo valor. Todos os elementos se equivaliam. Era um homem do século 19 com uma visão grandiosa", diz Fernanda.
A produtora acrescenta que Wagner "foi precursor do cinema ao inserir efeitos especiais, como fogo e gente voando, em suas obras". Ao revolucionar a ópera, o compositor teria contribuído também para a criação de uma identidade nacional alemã num contexto histórico em que o nacionalismo avançava em todo o Velho Continente.
Nome de proa do segundo romantismo, ele procurou distanciar-se dos modelos estrangeiros lutando arduamente contra a ópera italiana tradicional. Além de dar papel de destaque para a orquestra, escreveu textos de extrema qualidade e introduziu o leitmotiv (pequeno tema que assinala musicalmente situações, personagens e sentimentos), usado pela primeira vez na ópera "Lohengrin" (1848). Como temas, adotou a mitologia germânica e escandinava.
Os historiadores apontam também sua inovação em relação à harmonia. O cromatismo (modulação constante de um tom a outro), utilizado em obras da maturidade, tornou-se base das experiências de toda a música moderna. Em 1848, Wagner iniciou o processo de composição do ciclo "O anel dos nibelungos", obra com 18 horas de música e constituída por quatro óperas interligadas: "O ouro do Reno", "A valquíria", "Siegfried" e "O crepúsculo dos deuses".
Aliás, o grande acontecimento para os wagnerianos de todo o mundo será a estreia de um novo "Anel de Nibelungo" em 26 de julho, na abertura do festival de Bayreuth, templo da arte erudita e cidade onde o compositor mandou construir um teatro exclusivo para encenar suas óperas.
O festival é realizado todo ano atraindo a elite da música mundial. Os ingressos precisam ser reservados com cinco anos de antecedência. Não há cambistas e as bilheterias só vendem um ingresso por pessoa. "Wagner compôs uma música superior. Não é qualquer seguidor de música sertaneja que pode ouvi-la. Mesmo assim, é comum ouvir óperas de sua autoria em programas de televisão. No cinema, o filme 'Melancolia' trouxe o tema 'Tristão e Isolda' em sua trilha", salienta Fernanda, uma wagneriana de carteirinha.
Ela explica que, como homem, o autor de "Parsifal" não era flor que se cheirasse. "Era um sujeito discutível, muitos o odeiam. Safadão, gostava de tomar mulher de um e de outro. Era também antissemita. Por isso, os judeus não permitem que suas músicas sejam tocadas em Israel", lembra.
Em 1850, Wagner publicou "O judaísmo na música", em que atacava fortemente a influência judia na cultura e na arte alemã. No texto, ele retrata os judeus como "ex-canibais, treinados para ser agentes de negócios da sociedade". Não à toa, ele era o compositor predileto dos nazistas.
Também padecia de megalomania. Em sua autobiografia, criou para si uma imagem heroica, à beira da perfeição. Acreditava que depois de sua obra a música nunca mais seria a mesma. Bem, sobre isso, ninguém ousa questionar. Após a consagração, Wagner diminuiu seu ritmo, mas não abandonou o trabalho. Morreu em Veneza, na Itália, fulminado por uma síncope em 13 de fevereiro de 1883.


