O alegre baú da vovó
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de setembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Tente falar rápido: O tempo perguntou pro tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo de dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.
Fácil? Tente outra: Não tem truque, troque o trinco, traga o troco e tire o trapo do prato. Tire o trinco, não tem truque, troque o troco e traga o trapo do prato.
Fácil também? Então tente essa: A sábia não sabia que o sábio sabia que o sabiá sabia que a sábia sabia que o sábio não sabia que o sabiá não sabia que a sábia não sabia que o sabiá sabia assobiar.
Nessa brincadeira, nó na língua é uma consequência quase certa. É justamente por isso que esse gênero da literatura popular recebe o nome de trava-língua. Em matéria de brincadeiras com as palavras, o trava-língua é tão delicioso quanto as adivinhas e as parlendas.
Falando em adivinha, procure solucionar essa: O que é, o que é / Ele é magro pra chuchu / Tem dentes mas nunca come / E mesmo sem ter dinheiro / Dá comida a quem tem fome? Difícil? Tente outra: O que é, o que é / Buraco sem serventia / Não existe quem não tem / Homem tem, mulher tem / Velho e criança também? Mais uma: O que é, o que é / É cabeça e não tem olho / Não tem cabelo nem nada / É dura sem ser teimosa /Adora levar pancada? Respostas: garfo, umbigo e cabeça de prego.
Trava-línguas e advinhas recheiam Armazém do Folclore, novo livro infantil do escritor e ilustrador Ricardo Azevedo. Lançado pela Editora Ática, a obra pode ser descrita como um baú de vovó, onde as crianças podem enfiar a mão e tirar uma infinidade de surpresas. Um baú de cultura popular brasileira.
Armazém do Folclore é uma espécie de continuação um outro livro de Ricardo Azevedo chamado Meu Livro de Folclore (Editora Ática, 1997). Reúne quadras populares, frases feitas (expressões idiomáticas), brincadeiras com palavras, ditados populares, adivinhas, trava-línguas e contos populares. Traz também receitas culinárias (como curau e bolinho-de-chuva) e histórias de famosos mostrengos (mitos) brasileiros: Saci, Curupira, Bicho-Papão, Lobisomem e Iara.
Ricardo Azevedo encontrou uma ótima maneira de apresentar o folclore e a literatura popular. Não trata o tema como algo distante das crianças, mas como algo que faz parte da vida, das brincadeiras e do imaginário de cada uma delas. Isso numa época em que a tradição tende ao enfraquecimento. Em suas palavras, contos, ditados, quadras, adivinhas populares, são criados a partir de uma forma de pensar ao mesmo tempo pragmática, intuitiva, lúdica e corporal não são importantes para serem conservados apenas só por ser tradicional ou antigo, mas por representarem um riquíssimo depósito do conhecimento humano, respeito pela vida e pelo mundo.
Armazém do Folclore de Ricardo Azevedo, Editora Ática, 128 páginas. Preço: R$ 14,90 (mas até outubro, o livro está com preço promocional de R$ 9,90 em comemoração ao 35º aniversário da Ática)
ReproduçãoCom ilustrações de Poty Lazzarotto, livro traz histórias de todas as regiões do BrasilLANÇAMENTO
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