O aglutinador de ritmos
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quinta-feira, 08 de fevereiro de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
O paraibano Herbert Vianna atravessou, como compositor e instrumentista, vários turbilhões musicais. Desde a influência nordestina ao punk-rock que se multiplicava nas ruas de Brasília onde foi morar com a família e conheceu o baixista Bi Ribeiro até ritmos caribenhos, Herbert Vianna agregou essas referências ao grupo que permaneceu mais perto da música brasileira quando o rock voltou a explodir no país, nos distantes anos 80.
Não dá para afirmar que ele é exatamente o líder da banda, mas sem dúvida, é o mais preocupado em explicá-la. Assumiu, desde o início, ser o chato do grupo, o mala questionador, em busca de um sentido mais profundo, que vai além de três ex-universitários se divertindo com uma banda de rock.
Esse foi um dos motivos que levou os Paralamas a ter altos e baixos na carreira. Se, em alguns momentos, a fórmula do sucesso parece evidente, em outras a reviravolta é explícita em experiências de estúdio, apontando caminhos menos digeríveis e mais incertos. Alguns bons discos dos Paralamas não tiveram repercussão de público, apresentando uma banda ainda distante do comodismo, com criatividade para mostrar. A mesma inquietação é perceptível nos discos solos de Herbert Vianna.
Nos anos 90, quando a mistura de rock com gêneros nacionais estourou, embalada pelo mangue-beat, Vianna fez questão de lembrar que os Paralamas já anunciavam a tendência dez anos antes e os Mutantes há mais de vinte. Na discografia do grupo há samba, emboladas quando ninguém se lembrava de Jackson do Pandeiro eles gravaram Um a Um (Edgard Ferreira) rumbas, salsas, ska que depois se tornaria febre no meio hardcore e reggae. Também transpareceram influências africanas, quando, por um curto período, alguns compositores do continente conseguiram espaço na América em uma movimentação que rendeu até documentários.
Quando a profissionalização pintou, os Paralamas passaram a levar a música ainda mais a sério, intensificando estudos, aprimorando a leitura, procurando compor com o apoio da partitura, transcrevendo arranjos e melodias. Muitos músicos dos anos 80 ficaram na busca instintiva das soluções musicais e, com o tempo, as limitações podaram a criatividade, estancando a produção.
Uma briga comprada por Herbert Vianna foi a busca de diálogo entre a música brasileira e a latino-americana. Ele constatou, com o sucesso dos Paralamas no exterior, que a música brasileira ganha penetração em outros países da América Latina, mas o inverso não ocorre. Pelo contrário, ainda há um preconceito muito grande com o que nossos hermanos vêm fazendo. Afora nomes pasteurizados como Ricky Martin, nada sabemos da música mais séria feita em países como Chile, Argentina, Bolívia, Peru, Venezuela e Porto Rico.
Em Nove Luas, os Paralamas tentaram reverter o preconceito, gravando grupos reconhecidos como o Soda Stereo (argentino). Antes, gravaram músicas de Fito Paez e tocaram com o pianista Charly Garcia.
Só nos últimos anos os Paralamas do Sucesso ganharam aval dos medalhões da MPB, chamando a atenção de nomes consagrados como Gal Costa e Zizi Possi. Ultimamente, o grupo estava de folga após a turnê do disco acústico, gravado ao vivo.
Cerebral, Herbert Vianna leva a profissão a sério. No casamento com Lucy, na Inglaterra, a festa rolava quando os ingleses começaram a questionar se ele era músico de verdade. O trio não teve dúvidas: deslocou o conjunto contratado do palco e fez um show particular.
Obcecado por aviões, Herbert Vianna é considerado um piloto responsável pelos dirigentes do aeroclube ao qual era filiado. Brincadeiras suicidas com um ultraleve não batem com sua personalidade. Ainda não há provas da causa do acidente e, portanto, qualquer especulação é precipitada.


