É possível, mas não provável, que o cinema brasileiro leve uma ou outra estatueta das quatro que estará disputando neste domingo (15) no Dolby Theatre de Hollywood, durante a 98ª cerimônia de entrega dos prêmios Oscar.

“O Agente Secreto”, o consagrado longa de Kleber Mendonça Filho que até o momento coleciona cerca de duas dezenas de troféus de primeira linha colhidos mundo afora, teve quatro indicações oficiais e concorre a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco (seleção e direção de elenco, a definição mais justa), categoria até então inédita que tenta dar merecida recompensa a atores e figurantes que completam o entorno dos protagonistas de ponta.

A perspectiva mais realista porque otimista é que o Brasil tenha melhor sorte na categoria de filme internacional (o Oscar de “Ainda Estou Aqui” em 2025), embora a concorrência dos outros nominados seja também muito forte, até porque de altíssimo nível – “Valor Sentimental”, “Foi Apenas um Acidente”, “Sirât” e “A Voz de Hind Rajab”. Se levar o Oscar nesta categoria, será um bi histórico.

Enquanto isso, boa parcela da mídia brasileira (aquela mundana, nada especializada e com propósitos outros) vem nos últimos dias descartando o representante brasileiro da disputa, remetendo sumariamente “O Agente...” à vala comum dos perdedores.

Nada, no entanto, preocupa ou vai tirar o sono de Kleber, que já começa a preparar seu próximo roteiro, localizado no idos de 1937, com certeza em busca de verdades político-ideológicas infiltradas em nosso passado de sombras.

MELHOR ATOR

Agora o capítulo Wagner Moura.

Provavelmente sua interpretação impecável passa ao largo de critérios mais seletivos que os votantes da Academia tem o mau hábito de desprezar. Mas o protocolo da festa já decidiu: o ator vai subir ao palco para apresentar e entregar um Oscar a alguém premiado (mas ainda não anunciado).

Os favoritos na categoria então já estão desenhados: Leonardo DiCaprio bom, mas sem repetir seu primeiro Oscar que deveria ter dividido com aquele urso feroz em “O Regresso”, há exatos dez anos.

Não vi o “Blue Moon” de Ethan Hawke. Mas o Michael B. Jordan em papel duplo em “Pecadores” acho bem pobre (mais convincente é a gatinha “double face” na pensão dos refugiados da ditadura em “O Agente...”).

E Timothée Chalamet, nos últimos tempos mergulhado em águas profundas de Narciso, vem em queda livre de conduta artística pública. Ainda que seu trabalho em “Marty Supreme” seja requintadamente amoral, como pedia o personagem-título.

MELHOR ATRIZ

Minha atriz para o prêmio da categoria, sem senões, ou concessões à concorrência, é Jessie Buckley. Com o máximo respeito à contida exuberância da norueguesa Renate Reinsve, que impregna o filme de Joachim Trier (“Valor Sentimental”) de alta voltagem dramática. Assistindo “A Noiva!”, neste momento nas telonas em Londrina, fica a impressão de que Jessie Buckley é capaz de vestir qualquer personagem. Mas como a Agnes shakespeariana ou como “A Noiva!” de Frankenstein, a atriz irlandesa sabe exatamente como, onde e porque o ato de gritar é uma arte...

COADJUVANTES

Entre os sempre talentosos coadjuvantes (às vezes mais, às vezes menos, mas nesta edição a safra é ótima), os mais interessantes o militar fascista e abusador requintado vivido por Sean Penn, o hilário instrutor de karatê e protetor de imigrantes construído com humanidade extra por Benicio del Toro (ambos de “Uma Batalha Depois da Outra”) ; o pai ausente em “Valor Sentimental”, muito bem trabalhado pelo sueco Stellan Skarsgärd (deveria estar na categoria de ator principal); e o ótimo australiano Jacob Elordi, que deu vida nova (e fiel ao espírito literário de Mary Shelley) à criatura nascida da mente de Victor Frankenstein.

Entre as mulheres, Teyana Taylor de “Uma Batalha Atrás da Outra”, e Amy Madigan ( "A Hora do Mal") devem dividir preferências da Academia.

MELHOR DIREÇÃO

Paul Thomas Anderson, antigo candidato, tem grande chance de levar seu primeiro Oscar pela direção de “Uma Batalha Atrás da Outra”; a sino-americana Chloé Zhao também está no páreo como diretora de “Hamnet” (aliás meu candidato a melhor filme) ; e o dinamarquês Joachim Trier deve ser muito bem considerado pelo roteiro e direção de “Valor Sentimental”. Não cogito de “Pecadores” ( Ryan Coogler) e “Marty Supreme”(Josh Safdie) para Oscar da categoria. Mas há quem brigue por ou um ou outro...

TRANSMISSÃO DO OSCAR

Globo (aberta), TNT (fechada) e streamings Max e Globoplay transmitem a festa, com tapete vermelho a partir das 18h30. A cerimônia oficial começa às 21h.

O apresentador oficial é Conan O’Brien. E há boatos verídicos (sic) sobre uma reunião-reencontro da turma da Marvel no palco. Também estão previstas as surpresas de sempre: piadas de humor duvidoso, necrológio dos últimos 12 meses, declarações antibélicas, discursos de agradecimentos que vão ultrapassar os 45 segundos fixados.

Will Smith continua (sem tornozeleira) cumprindo suspensão de 10 anos pelo tapa em Chris Rock , ainda faltam 6 para ele voltar...

FAÇAM SUAS APOSTAS

Em podcast da Folha de Londrina, a jornalista Célia Musilli entrevista o crítico de cinema da Folha de Londrina, Carlos Eduardo Lourenço Jorge, e o cineasta Rodrigo Grota sobre o Oscar 2026.

Eles comentam as indicações e as chances do filme brasileiro "O Agente Secreto" que concorre a 4 prêmios importantes. Representantes da cultura de Londrina, especialmente na área de cinema, Rodrigo Grota e Carlos Eduardo Lourenço Jorge fazem suas apostas.

E vocês, já fizeram as suas?

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