Quando assistimos a um filme, não imaginamos como uma ideia se transforma em cinema. O espectador, sentado na poltrona, não tem acesso ao processo de criação estética que antecede a projeção do filme.

O cineasta Rodrigo Grota oferece os bastidores desse processo em “Anotações Para o Leste”, livro que acaba de ser lançado pela editora Kinopus. A obra traz textos escritos por Grota durante o processo de criação do longa-metragem “Leste Oeste”, onde atuou como roteirista e diretor. Projeto totalmente filmado em Londrina em 2014 e finalizado em 2016.

Os bastidores desse processo estão fundamentados na literatura. “Anotações Para o Leste” faz uso da literatura, em sua linguagem mais contemporânea, para desenvolver personagens, situações, cenários, ambientes, sensações e atmosferas. E também para potencializar o deslocamento de tempo e espaço na noção de amor.

A seguir Rodrigo Grota fala sobre o livro e a ideia de que toda arte passa pela literatura.

“Anotações Para o Leste” traz textos literários preparatórios para a realização do filme “Leste Oeste”. Como esses textos fizeram parte do processo de criação do filme?


Os textos me ajudaram a pensar e sentir as personagens e paisagens ao longo dos quatro anos anteriores ao set. Essas anotações surgiram em 2011, logo após o primeiro tratamento do roteiro. Ao escrever esses fragmentos queria investigar pulsações possivelmente presentes no universo afetivo do filme, mas não somente de uma forma objetiva, consciente. Escrever me ajudaria, nesse caso, a realizar uma aproximação de uma forma mais intuitiva, fabular. Acredito muito em uma estratégia de trabalho que gosto de chamar de “estética do desvio”. Você imagina um universo, começa a se aproximar dele, e em certo momento se distancia, para que a reaproximação ocorra apenas com aquilo que seria essencial.

Nesse processo você estabelece conexões entre literatura e cinema?

Acredito que cinema e literatura são linguagens muito similares e que lidam com uma aparente dualidade: ver e não-ver. A literatura, para mim, é sempre o registro do não-visível. Mesmo quando se descreve um universo realista, a literatura o visualiza a partir de outra lógica, a lógica verbal. Já o cinema se potencializa a partir daquilo que é visível. Há a mediação de uma máquina, a câmera, que em muitos casos amplia o nosso olhar. Nesse sentido, concordo com Fernando Pessoa, quando ele argumenta que toda arte é literatura, pois toda arte é a expressão do silêncio. A literatura expressa esse silêncio a partir da palavra. O cinema expressa o silêncio a partir da imagem. Agora, se você me perguntar, o que é esse silêncio, não ouso responder.

Rodrigo Grota: "Acredito que cinema e literatura são linguagens muito similares e que lidam com uma aparente dualidade: ver e não-ver"
Rodrigo Grota: "Acredito que cinema e literatura são linguagens muito similares e que lidam com uma aparente dualidade: ver e não-ver" | Foto: Gustavo Carneiro/ Arquivo Folha 20-02-2019

“Anotações Para o Leste” pode ser considerada uma obra sobre o amor, ou mais especificamente, sobre a impermanência do amor?

Eu queria fazer um filme pessoal, íntimo, mas não exatamente autobiográfico. Nesse sentido, sim, poderíamos dizer que é um filme sobre o amor, na medida em que ele lida com a impossibilidade desse sentimento permanecer. Um dos meus pontos de partida era investigar a vida dos meus pais antes deles se conhecerem: o que faziam, o que pensavam, que desejo impulsionava essas vidas? Mas eu não queria contar o que foram essas vidas, e sim imaginá-las, tendo em mente aquilo que elas poderiam ter sido. De certa forma, a pergunta que mais me angustiava no começo era: “é possível voltar pra casa?”. Entendendo “casa” como o nosso ponto de origem afetiva mais antigo. Ao longo do processo de escrita, outra questão se impôs: “não estamos sempre em casa?”. Dessas duas questões quase excludentes, surgiu essa ideia de um reencontro entre o homem que volta e a mulher que canta – o fato de um deles ter consciência desse amor já o restringe. Amar, nesse sentido, seria sempre uma ampliação, a possibilidade de reinventar a si mesmo.

No livro você defende a ideia do “amor moderno”. Qual o motivo?

Defendo o amor moderno porque o amor romântico sempre me pareceu ser possuído por um sentimento de posse e de um apego excessivo a si mesmo. Esse amor moderno, celebrado na música de David Bowie, nos oferece outra possibilidade: o reconhecimento da impossibilidade de ser a si mesmo, que no fundo o eu é um outro, ou que, para ser mais otimista, existem múltiplos eus. Esse amor moderno seria um sentimento muito próximo daquilo que entendo também como a melhor forma de se aproximar de algo externo. Quando me aproximo, me distancio. E quando estou aqui, na verdade, estou ausente.

As 20 narrativas fragmentárias que integram a obra percorrem o fluxo de consciência do personagem. Por que a opção por essa forma narrativa?

Gosto da síntese e do inacabado, da simultaneidade e do fragmento. Gosto da ideia de descrever tudo o que se passa na mente e no corpo de um personagem em um só instante, como se essa intensidade fosse a única forma de romper com a ideia de deslocamento no espaço e no tempo. E também seria uma forma de expressar algo similar aos “outtakes” de um filme ou de uma gravação - para mim esse material esquecido, ou não publicado, sempre traz uma energia muito forte. Como se a verdadeira obra estivesse no material que não foi apresentado ou finalizado.

Paralelamente ao seu trabalho no cinema você tem outros projetos literários em andamento?

No momento estou escrevendo um livro chamado “Hotel Berlim”. Na verdade, comecei a escrever em 2014, logo após as filmagens de “Leste Oeste”, mas só recentemente ficou mais claro que caminho seguir com o livro. A trama é ambientada em um tempo futuro e se passa em um hotel. A ideia inicial é lançar “Hotel Berlim” em 2020.

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. | Foto: Reprodução

Serviço:

“Anotações Para o Leste”

Autor – Rodrigo Grota

Editora – Kinopus

Fotografias – Guilherme Gerais

Desenhos – José de Aguiar

Páginas – 64

Distribuído de forma gratuita em exibições do filme “Leste Oeste” nos cinemas e em sessões especiais. Pedidos pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (43)3357-7844

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