Jovem talento revelado em 1998 em Cannes com o longa-metragem de estréia, ''A Maçã'', Samira Makhmalbaf tem a quem puxar. O pai, Moshen Makhmalbaf, ao lado de Abbas Kiarostami, é responsável direto por um cinema iraniano que nos anos 1990 trouxe nova vitalidade a uma rarefeita cinematografia mundial. Samira sempre teve ajuda decisiva do pai, e ambos têm uma longa associação com o Afeganistão. Ainda nos anos 1980 Moshen filmou lá ''O Ciclista'', e há dois anos, em Cannes, ele apresentou ''Kandahar'', rodado clandestinamente num país ainda regido pelo Taliban. No ano passado, o cineasta fez lá o documentário ''Afghan Alphabet''. Samira, por sua vez, fez também em território afegão o seu episódio para a produção coletiva ''11'09'01'', sobre o atentado de 11 de setembro.
''Nos últimos dois anos toda a mídia do planeta falou sobre meus vizinhos. Assim, como uma iraniana como eu, situada entre duas tragédias, do Afeganistão e do Iraque, poderia ficar apenas vendo e ouvindo?'', justificou a já veterana cineasta de apenas 23 anos durante a entrevista coletiva que se seguiu à projeção de ''Panj é Asr'', ou ''A Cinq Heures de l'Après-Midi'', filme exibido ontem na seção competitiva. É a história de uma jovem, Noqreh, que alimenta sonhos de ser um dia a presidente do Afeganistão, enquanto vive o dia a dia da amarga realidade de um país devastado materialmente e culturalmente submerso em trevas impostas pela censura fundamentalista, que privou a população do progresso, impedindo até mesmo o acesso a uma identidade através das imagens. Sem teto, sem comida ou água, ela, o pai, a nora e o filho bebê vagam em busca de abrigo pelas imediações de uma Kabul arrasada.
''A Cinq Heures de L'Après-Midi'', que estende suas denúncias para além da condição feminina, é dessas obras que transpiram integridade, voltadas a uma causa determinada. É evidente o empenho em busca da correção política. Samira novamente faz coincidir a dureza de seu discurso com o rigor formal dos planos, obtendo assim o efeito pretendido: expor a realidade bruta. E se com talento, ainda melhor. Inconfidência circulando nos bastidores do festival: no júri, o presidente Patrice Chereau e o cineasta Danis Tanovic, membros-fundadores da associação ''Um Cinema para Kabul'', que trabalha pela reconstrução de uma sala de projeção na capital afegã, não deverão ficar insensíveis ao filme.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.

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