O ADVOGADO DA MPB
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terça-feira, 15 de agosto de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Lentamente, a indústria fonográfica, sob comando das grandes gravadoras, ensaia mudanças. Após anos investindo na música como produto de consumo fácil e rápido, alcançando vendagens estratosféricas, as majors instaladas no Brasil começam a perceber que, apesar do lucro, ignorar a qualidade gerou uma camada flutuante de ouvintes e consumidores ávida por novos talentos.
Com os ouvidos exaustos, esta parcela encontrou brechas nas barbas da grande indústria: a tecnologia digital facilitou o processo de gravação e forneceu o terreno ideal para o surgimento de selos voltados para segmentos marginalizados. Em pleno domínio da música comercial, esses focos ganharam espaço, oferecendo diversificação.
O nicho foi ampliado e agora as majors correm atrás do prejuízo. Um dos indícios seria o Festival de Música Brasileira da Rede Globo, que privilegiou uma série de nomes que circulavam nesta faixa. Ao mesmo tempo, segmentos como o pagode e a música sertaneja procuram oxigênio para segurar o pique.
No centro do redemoinho, esquentam as discussões sobre direitos autorais na Internet, com a distribuição de arquivos MP3 e softwares como o Napster, que possibilita a troca de arquivos musicais entre pessoas de todo o mundo.
Atuando em todas essas questões, José Carlos Costa Netto é advogado autorialista (especialista em direitos autorais), compositor e produtor cultural, à frente do selo Dabliú, de São Paulo. É autor, entre outras, da música Verde, que lançou Leila Pinheiro. Como advogado, já defendeu Djavan e Renato Russo. E como produtor, lançou álbuns de Jorge Mautner, Vicente Barreto, Luiz Gayotto, Bernardo Pellegrini, Madan, Kleber Albuquerque e muitos outros. Sem abrir concessões às fórmulas caça-níqueis.
Enquanto prepara as novidades deste semestre, Costa Netto conversou com a Folha2, por telefone, sobre fatores que estão mudando a forma de ouvir música, além do trabalho desenvolvido na Dabliú e os novos rumos do mercado.
Você é advogado, compositor e produtor cultural. Qual dessas atividades veio primeiro e quando as três se cruzaram?
Primeiro veio o compositor. Lá por volta de 64/65 eu comecei a aprender violão e compor música e letra. Minha família é de advogados e eu tinha uma facilidade para seguir essa área. Quando eu terminei o curso, estava começando a se falar de direito autoral no Brasil e a USP abriu um curso de pós-graduação. Em 1976 entrei na especialização e em 1979 me tornei presidente do Conselho Nacional de Direito Autoral, na época o ministro da Cultura era Eduardo Portela e me deu muita força para fazer algumas modificações no sistema autoral. Em 1979 tive minha primeira música gravada, O Dia Seguinte, com o Paulinho Nogueira.
Como foi a história de Verde?
Quando mandamos a fita demo para o festival da Globo, quem cantava era o Lula Barbosa. Mas ele foi classificado com Mira Ira e ficamos sem intérprete. Aí o César Camargo Mariano indicou a Leila Pinheiro. Ela ganhou como revelação e a música pegou o terceiro lugar. Mira Ira ficou em segundo e Escrito nas Estrelas, com Tetê Espíndola, em primeiro.
Ao mesmo tempo você advogava.
Eu advogava para Renato Russo, Herbert Vianna, Milton Nascimento, Djavan, Maria Bethânia, cerca de 60 autores, mais ou menos. Eu comecei a ficar dividido entre advogar para as grandes estrelas e ter uma iniciativa própria. Comecei a desgostar da forma com que as grandes gravadoras tratavam o trabalho destes autores, enquanto trabalhos de menor qualidade passaram a ganhar mais atenção. O mercado fonográfico ainda hoje é controlado por cinco grandes gravadoras e qualquer tentativa de entrar não vingava porque estava fechado aos compositores de MPB de qualidade. Eu fui me desiludindo.
Como surgiu a Dabliú?
A Warner, com o André Midani e o Beto Boaventura, resolveu fazer uma experiência abrindo alguns selos: o Banguela, dos Titãs que revelou os Raimundos , a MZA, a Dubas, e a Dabliú. O nome Dabliú veio de uma canção de Lamartine Babo e Noel Rosa, e o logotipo foi feito pelo Millôr Fernandes. Era uma opção para retornar ao Brasil independente, real, de qualidade, fora dessa massificação e deteriorização. Temos dois slogans: A Qualidade de Novo na MPB, que atenta para trabalhos marginalizados, mas que não são novos, e A Qualidade do Novo na MPB, com as novidades. Depois de uns dois anos fizemos um acordo amigável para a Dabliú partir para uma iniciativa mais autônoma. Fomos reunindo gente e trocando informações, hoje estamos com quase 80 CDs. Sem preocupação com o comércio, voltado para a arte, poesia e música.
Como entrar em um mercado controlado pelas majors, dominado pelo jabá e fechado para novas idéias?
É uma estrutura pesadíssima. As grandes redes de rádio fazem acordos comerciais com as grandes gravadoras. Entrar numa rede dessas é muito difícil. A gente procura aquele meio que não tem essa atitude viciosa no aspecto cultural. Existe uma atuação mais ou menos liberada nas margens desse sistema, um contato mais profissional e permanente com emissoras que não estão dominadas. A própria MPB já está começando a retomar, ficamos 15 anos sem festival na Globo. Essa abertura aconteceu de fora para dentro dos grandes centros urbanos. Um exemplo é a Folha de Londrina, que abre espaço para isso. Existem algumas regiões em que a MPB disputa algumas audiências.
A tecnologia também deve ter ajudado.
A democratização da mídia com a Internet e distribuição de obras permitiu isso. Em Nova York, a Dabliú tem o www.execd.com, um site em que as faixas estão disponíveis para qualquer pessoa montar seu CD. Isso tudo pegou as grandes gravadoras de calças curtas. Niguém pensou que existiria divulgação e distribuição tão rápida. A primeira reação foi reprimir, porque teoricamente haveria um esvaziamento da receita do direito autoral. Quando apareceu o CD, a pirataria abocanhou grande parte do mercado, pirataria pesada. Com a Internet você vende uma forma de controlar as reproduções para não haver pirataria. É um controle até maior que o CD.
E o Napster (programa para trocar arquivos de música pela Internet que está sendo criticado por grandes gravadoras e nomes como Metallica e Dr. Dre)?
O Napster já é um aprimoramento do MP3. No Napster você transfere um arquivo completo. Há de haver um Napster regularizado, que respeite os direitos autorais. Falam muito nas grandes competições fonográficas, mas não se pode querer que o uso das obras musicais seja feito sem os direitos autorais. Como as pessoas vão sobreviver para criar? Tem que respeitar a evolução tecnológica e apropriar os direitos autorais àquele sistema. É preciso um sistema de controle para todo mundo ficar satisfeito.
E o Festival da Globo?
Quatro pessoas que gravaram com a gente foram classificadas: o Vicente Barreto (com Cisma, parceria com Costa Netto); o Kleber Albuquerque (com Xi! De Pirituba a Santo André, parceria com Rafael Altério); o Luiz Tatit (com Show, parceria com Fábio Tagliaferri); e Moacyr Luz (Eu Só Quero Beber Água).
Quais as novidades do selo para este semestre?
Temos o relançamento de um grande disco de Moacyr Luz, História de Ilusão, em outubro ou novembro. A Alzira Espíndola, irmã de Tetê Espíndola, está gravando um disco cantando Maysa, a cantora Ione Papas vem com um repertório só de Noel Rosa. Vamos relançar os volumes 1 e 2 de Notícias do Brasil e Ensaios do Dia, do Eduardo Gudin, além do show ao vivo O Importante é que nossa Emoção Sobreviva, do Gudin e do Paulo César Pinheiro. Em breve deve sair o disco da excelente cantora Consuelo de Paula. O diretor musical da Banda Vexame, Fernando Salém, vai lançar seu primeiro disco solo em novembro. E o Língua de Trapo sai com um disco ao vivo até setembro.


