Em dia incerto, perguntaram ao cineasta Akira Kurosawa qual seria sua relação com uma obra de arte. Ele observou que em alguns casos o que lhe atraía era o aspecto racional. Mas, na verdade, não haveria nada como a paixão para prendê-lo tanto. Em outras palavras, o mestre japonês queria explicar que se envolvia pra valer, mesmo, era com o coração. O resto... era o resto.
Não muito distante desse estilo, esteve o cineasta francês François Truffaut (1932-1984), aquele que os críticos adoram definir como amante incondicional de uma bela tríade: o cinema, as mulheres e as crianças. Nascido em 6 de fevereiro de 1932, o diretor figura em mais de 45 mil páginas na rede mundial de computadores. Sítios como http://iihm.img.fr/truffaut/, www.mk2.com/film01.html e www.filmref.com/directors/dirpages/truffaut.htm trazem notícias biográficas, reprodução dos cartazes originais dos filmes, lista de obras lançadas em VHS e DVD, além de inúmeros comentários sobre o autor de ‘‘Jules e Jim’’. No Brasil, apenas ‘‘Noite Americana’’ figura em VHS.
A própria vida de Truffaut é tão ou mais interessante que seus filmes. Uma das biografias oficiais do cineasta, coordenada pelo crítico de cinema Serge Toubian, detalha a trajetória do pobre garoto, que nunca soube exatamente quem era seu pai, e se apoiava no cinema e na literatura para habitar outros mundos para além de sua realidade. Truffaut amava Balzac, Bach e adorava quando sua mãe o levava para as salas de cinema de uma Paris ocupada pelos nazistas.
A frequência assídua aos cineclubes o colocou em contato com o grande crítico de então, André Bazin, um dos fundadores da legendária Cahiers du Cinéma. Truffaut chegou até a roubar grana de seus pais para ver alguns filmes e montar seu cineclube. Resultado: foi enviado para uma colônia para jovens onde ficou recluso por quase um ano, sobrevivendo apenas de leituras de Balzac, Jean Cocteau, André Gide e André Malraux.
Ao sair dessa prisão, Truffaut passou a morar junto ao casal Bazin e ingressou na polêmica Cahiers. Apaixonado pelo cinema americano, ele pode conhecer após o período em que a França esteve sob ocupação alguns filmes que mudaram Hollywood. Encanta-se com o poderio de ‘‘Citizen Kane’’, ‘‘Soberba’’, atualiza sua aproximação com Alfred Hitchcock e é seduzido pela força de Nicholas Ray e Samuel Fuller.
Passa a entrevistar cineastas e se convence cada vez mais em partir para a prática. Realiza então ‘‘Les Mistons’’, um libelo delicado sobre a descoberta do sexo. Em 1959, aos 27 anos, o crítico que havia detectado na produção francesa traços aristocráticos que não poderiam mais perdurar, apresenta no Festival de Cannes o primoroso ‘‘Os Incompreendidos’’, uma autobiografia que mostra e comprova a fantasia como única salvação da bárbarie contemporânea. Estava também consolidada a nova onda (nouvelle vague), que inovou a sétima arte com peripécias de Jean-Luc Godard, Eric Rohmer, Alan Resnais, Claude Chabrol e Jacques Rivette.
Ao longo de toda a sua carreira, Truffaut manteve uma relação de admiração com a vida. Películas românticas como ‘‘Jules e Jim’’ e ‘‘As Duas Inglesas e o Amor’’ tratam o objeto amado como algo transcendente, amoral e indomável. ‘‘O Homem que Amava as Mulheres’’ evidencia um cineasta com uma paixão tão intensa que em muitas vezes não pode ser compreendida. Algo como uma velha parábola em que Goethe atribuía à paixão o poder de se igualar a Deus.
A estrutura narrativa de seus filmes beira o literário. Muitas falas, muitos personagens, mas sempre a alma do cinema, a ‘‘nova’’ arte que redimensionou o século 20. Truffaut criou uma dimensão única que sempre privilegiou o romantismo, as emoções sinceras, o despudor da intuição e o descontrole do passional. Seus habituais parceiros George Delerue (música), Nestor Almendros (fotografia), Suzane Schiffman (roteiro) sabiam que o cineasta queria apenas a fantasia: ‘‘A realidade é necessária, mas insuficiente’’, já bradava um poeta anônimo.
Após 18 anos de sua morte, não há mais um encontro com a fábula em uma sala escura, não há mais como desvendar os segredos dessa sétima arte (‘‘Noite Americana’’), as desventuras da infância (‘‘Garoto Selvagem’’, ‘‘Na Idade da Inocência’’), os bastidores do teatro (‘‘O Último Metrô’’, ‘‘De Repente Num Domingo’’), e as incoerências de uma bela mulher (‘‘A Sereia do Mississípi’’, ‘‘A Noiva Estava de Preto’’). Não se pode mais esperar um novo Truffaut – apenas redescobrir aquele que conhecemos. O que também é muito...
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